A MORTE DO FRANKSTEIN

Na política as coisas não são bem assim, costumava dizer o amigo Heraldo, quando alguém queria impor uma idéia ou conduzir a discussão conforme o seu interesse. No entender do “Negão”, como o chamávamos carinhosamente, as pessoas e os fatos desse meio são e serão sempre imprevisíveis. Resultado da cultura que político é um traidor inveterado, que não cumpre acordos, de ser individualista, de não ter compromisso social, de ter ambições desmedidas, de se lixar pro povo, etc, compatíveis com o caráter e natureza que lhe são atribuídos. Há as exceções, sem dúvida.

Justiça se lhe faça, são imbatíveis quando se trata de maquinar formulas de sobrevivência. Porque não toleram correr qualquer risco. Daí que no período da formatação das coligações, próprias da temporada eleitoral, o quadro político é minuciosamente pesado, medido e cheirado, antes de qualquer decisão. Um erro pode ser fatal. Às vésperas das convenções as conversas se aceleram na busca da melhores parcerias. Uma coligação só é boa quando atende os interesses dos candidatos majoritários, prefeitos, e proporcionais, vereadores. Uma fórmula nada fácil.

Antes essa questão era balizada ideologicamente. Havia um fosso intransponível de preconceito separando esquerda e a direita. Dificilmente naquela sopinha de siglas que indicam as coligações partidárias, você encontraria o PT, por exemplo, ao lado do PFL e do PL, partidos dogmaticamente contrários. Os tempos mudaram, os dirigentes também. A crença em valores e princípios, antes indispensáveis, cedeu lugar ao pragmatismo, espécie de suruba organizada, considerada indispensável para se chegar ao poder. Compare, por exemplo, o discurso de antes de Genoíno, líder guerrilheiro do Araguaia, com o do engravatado e perfumado Presidente do PT de hoje e “sinta a diferença”, como diz o comercial.

Essa epidemia, infelizmente, tomou conta do Brasil. No geral as formulas sugeridas de coligação são um exercício de malandragem e chegam as raias da bizarrice. Embutem espertezas e muitas vezes são armadilhas para ludibriar incautos e pessoas de boa fé. Agora mesmo acabamos de sair de uma rodada de negociação, só de cobra criada, comandada por Sarney cujo objetivo era formar uma ampla união de partidos em torno de João Henrique do PT, no fundo uma tentativa de salvaguardar seus interesses com vistas às eleições de 2006. Quatorze anos, dois mandatos depois, caiu a ficha e o Senador percebeu que as coisas mudaram.

O povo mais atento quer ação e atitude concreta. Mais ainda: a demonstração efetiva da força que exibe quando defende o seu estado natal e que prometeu colocar a disposição do Amapá. Daí seu o envolvimento direto, um esforço heróico para a construção dessa aliança do seu PMDB, o PDT de Waldez Góes e o PT de Dalva Figueiredo, vital para enfrentar esse desgaste, além de reforçar sua posição em Brasília, artífice da presença do PMDB na base de apoio do governo Lula e avalista dessa união eleitoral em todo o Brasil.

Em meio às costumeiras sessões de “beija-mão” da qual participam políticos e empresários de todos os calibres, o Senador Sarney, consciente do poder que exerce nos aliados, fez de tudo para construir um ‘chapão”, ou um Frankstein, modelo que tem demonstrado ser eleitoralmente inviável. Bem ao estilo de Sarney chegado a uma unanimidade. Formula no entanto incapaz de conciliar interesses de correntes tão díspares que se engalfinham por espaço nas coxias do poder, mas que tem uma vantagem adicional, segundo ele avalia, isolar o arqui-inimigo Capiberibe.

Tudo não passou de um delírio. A engenharia do caudilho maranhense caiu vencida pelos fatos e pela realidade objetiva, aquela que nos referimos lá no inicio. Não faltaram motivos para o Governo definir-se por candidatura própria, abortando as esperanças de Sarney. O maior deles foi detectar, em meio as suas dificuldades administrativas e políticas, geradas de causas naturais e artificiais, a articulação de uma outra via de poder, fora do comando do Setentrião, demonstrando, de forma inequívoca, a fragilidade dos mecanismos de controle que dizia ter o senador para garantir o acordo.

O deputado Lucas Barreto, da confiança do Governo, considerado inclusive virtual vice de Waldez em 2006, idéia cuidadosamente trabalhada para acomodar a sucessão na Assembléia Legislativa, migrou suspeitamente dessa para a condição de candidato a Prefeitura de Macapá, provocando a desconfiança de se tratar de uma manobra visando construir outra via para 2006. Tese reforçada pela presença do empresário Jaime Domingues do PMDB na condição de vice na chapa, cujo apoio seria decisivo para a consumação do plano final, exato a disputa do governo naquele ano.

Não bastasse essa insurreição, o Governo e Sarney teriam mais problemas para administrar num acordo dessa ordem e complexidade. A postura independente do Senador Papaleo, um deles, cuja candidatura a sucessão de Waldez vem pregando por onde anda, acreditando ( e quem sabe torcendo), que o governo chegará fragilizado no final do mandato, inviabilizando a sua reeleição. Coincidência ou não, a mesma tese do PSB e do senador Capiberibe. Pelo PMDB, uma das pontas do triangulo ou n’outro partido qualquer.

Por fim o PT, o terceiro grande vértice da aliança, um deserto árido, difícil de transitar por um petista de carteirinha, quanto mais por João Henrique e Sarney. Fechar um acordo tão amplo, num momento de espíritos e ambições exacerbados, é uma missão impossível, mesmo para Sarney, cujo poder ninguém duvida. Um Lula forte em 2006, difícil é convencer o PT abster-se da sucessão de Waldez. Impedir o Dr. Pedro Paulo, excluído do projeto, disputar a senatoria pelo seu PP, caminho que lhe restará, também. E não mencionamos sequer os interesses de outros convivas do banquete, instalados dentro e fora do poder.

Por isso a decisão de Waldez Góes pelo médico Sebastião “Bala” Rocha, contra todas as pressões, inclusive de Sarney, foi o tiro de misericórdia no “frentão”. A idéia esfarrapada das pesquisas para indicar o candidato, sugerida pelo astuto senador, uma artimanha na verdade, sequer foi considerada. O governador já sinalizou que vai conduzir o seu projeto de poder conforme seus interesses e organizar a sua base de sustentação sabendo, desde agora, quem vai apoiar o seu governo e candidatos às prefeituras, medidas consideradas fundamentais para quem quer manter o poder. Logo, o Frankstein de Sarney está morto.