A GUERRA SANTA DE HELOISA HELENA

Pra inicio de conversa quero declarar a minha profunda admiração pela senadora Heloisa Helena e dizer que sou seu fã de carteirinha. E dizer da minha comoção pela batalha sem trégua que trava, para provar a retidão de sua posição e para manter-se fiel as suas convicções. Politicamente correta e nem por isso se livra de ter que explicar, muita das vezes tomada de indignação, ponto por ponto, com absoluta clareza, cada peça que sustenta suas decisões, como deveriam fazer todos os parlamentares que detém mandato popular, em qualquer nível.

Esperei impaciente, do início do seu entrevero com o comando partidário até a decisão da Executiva Nacional do PT, para formar um juízo criterioso da questão, mas sempre alimentando a crença que a ameaça de expulsão da senadora fosse uma tese sem futuro. Era difícil admitir então, que o PT, espécie de santuário político, altar sagrado de luta e defesa dos princípios democráticos, fosse capaz de atentar contra o direito de opinião, da livre manifestação.

Mesmo que o neo-Genoíno, com sua carranca apocalíptica, ameaçasse na imprensa com “punição exemplar os rebeldes do partido”. De tão bizarra, parecia uma voz solitária. A tese petista, defendida a exaustão pelo seu Presidente, nega o livre arbítrio ou o direito de qualquer cidadão, por vontade própria, pensar e agir. Um pilar da democracia. Pela cartilha petista qualquer militante tem o direito de discordar das posições do partido nas alcovas, desde que as negue em público. Nos quartéis chamam pra isso ordem unida. Nos manicônios camisa de força. Aqui tudo bem, são doentes desprovidos de faculdades mentais e por isso de livre arbítrio.

Em síntese o PT aboliu o direito ao disenso sob a falsa idéia que a maioria tem razão, daí que os “vencidos” devem submeter-se ao que pensa e quer a maioria.Mas quem garante que a maioria está sempre certa? Não há quem. Por isto penso que o PT cometeu um grande equivoco. Ofendeu o Brasil, a consciência cívica da nação e deve sofrer graves conseqüências por isso, não tenham dúvidas.

A senadora pelas Alagoas, desde que as sessões do Senado passaram a freqüentar os lares brasileiros, virou um ícone nacional e fez uma legião de admiradores Brasil afora. Gente de todos os níveis, em particular os mais humildes e pessoas não comprometidas com o status quo, que vêem nela uma defensora incansável dos seus direitos. Gente feito ela acostumada a enxergar os fatos pelo angulo mais simples, lógico e verdadeiro.

Ao contrário dos que fazem o discurso furado, dos que defendem a mesmice, dos que são avessos as ações mudancistas, dos conservadores e outros bichos, não lhe cabe a pecha de radical nem a imagem demoníaca que lhe querem impingir. Ela é simplesmente lógica, objetiva, clarividente. E coerente. E mais adjetivos lhe cabem. E bons adjetivos. Não firula, vai direto ao assunto. Quando preciso com a elegância de um esgrimista ou a contundência de um boxer.

Nesse país de meias verdades isso é um crime. No Brasil das maracutaias, dos acertos espúrios, do jogo de cena, do faz de conta, do jogar para debaixo do tapete, da embromação e outras mumunhas, comportar-se como a senadora das Alagoas é fazer araquiri. Sua postura agride e incomoda quem não suporta a forma sincera, veemente e crua com que expõem e defende suas idéias. Talvez pelo sotaque nordestino colocado em riste, forte, convincente, com o qual expõem argumentos irretocáveis, que fere e corta igual navalha ou peixeira de cabra da peste.

O Brasil , como sabemos, ainda é um país extremamente conservador, apesar do progresso, da telefonia móvel e das antenas de TV. Somos vários brasis. Ou se preferirem: dois clássicos brasis, totalmente dissociados. O Brasil dos ricos , muito rico, classe privilegiada dona da grana e do poder, e o dos pobres e miseráveis pedintes, que vivem das migalhas e caridade desse Brasil rico, insensível, castrador, autoritário que a senadora, na sua bravura, combate tenazmente.

A discriminação que se faz a Heloisa Helena é alma gêmea do racismo e outros preconceitos negados, mas que habitam corações e mentes de grande parcela da elite brasileira. Essa elite que se arvora guardiã da moral e dos bons costumes quando se trata de defender os privilégios e benesses acumulados em todos os governos,cujas políticas excludentes, permitiram criar esse quadro infame, absurdo e horroroso dos tais brasis desiguais, ao que parece também legitimado pelo governo do PT.

A posição da Senadora é correta e bem fundada. Seus argumentos são irretocáveis, tanto faz nos atermos na análise da reforma tributária ou da previdência. Errado sempre esteve o PT, qualquer que seja o momento histórico que venhamos analisar. Fato que procura mostrar todos os dias. E que só a má vontade, a ignorância artificial, a hipocrisia de muitos ou a ignorância verdadeira de outros, justificam o título ofensivo de “radical” com que costumam cunhar a sua belíssima biografia.

É correto pensar que o PT , ao contrário da senadora, se convenceu do acerto das medidas propostas e aprovadas recentemente, em tudo semelhante as oferecidas pelo governo passado, sendo portanto justo inferir-se que ele estava errado quando negou a sua aprovação durante do governo FHC, a quem fez oposição cerrada, no pressuposto de defendender os mais legítimos interesses da sociedade brasileira, dos trabalhadores, dos aposentados, das viúvas, e em especial dos combalidos funcionários públicos federais.

E nos permite até “radicalizar” o raciocínio e dizer que o PT de Lula, Zé Dirceu, Genoino, Palocci, de Baba e Heloisa Helena daquele momento, foi irresponsável e produziu crime de lesa pátria ao negar ao Brasil, oito anos atrás, por pura birra, a implementação de mudanças necessárias ao alcance do crescimento econômico e social, condições que hoje, estranhamente o PT reconhece existirem nas medidas contidas nas ditas reformas.

Não há como conciliar as duas posturas. Nem ver qualquer coerência nelas. Uma está incorreta. E tudo leva a crer que a da era FHC, sem dúvida. Basta ver a batalha travada pelo partido nas duas casas do Congresso pela aprovação das medidas, as mesmas do período do tucanato. Pra refrescar, a sociedade brasileira ainda guarda na memória as lutas homéricas do PT daquele período. Sociedade mobilizada, praças tomadas de gente, operários, funcionários públicos, bandeiras vermelhas , tudo contra as teses antes negadas , hoje aceitas e aprovadas.

Isto nos permite concluir que a turma do PT deveria pagar muito caro pelo prejuízo e sacrifício imposto ao país uma vez que, dez anos depois, estaríamos experimentando um outro estágio de desenvolvimento e estabilidade econômica. Distante da inflação, do arrocho salarial, do desemprego , da violência urbana e rural, dos juros abusivos, do risco Brasil, da tropa do FMI, da dívida interna e externa, da CPMF enfim, teríamos todos os demônios da economia exorcizados ou sob absoluto controle. Leão domesticado, caipirinha em punho, sol à pino, Xsara Picasso na garagem, quem sabe gozando as delicias de um certo país tropical pujante e próspero, crescendo a taxas coreanas, como bons capitalistas que somos.

Por tudo isso é preciso tirar o chapéu e homenagear solenemente a Senadora Heloisa Helena pela retidão e legitimidade de suas bandeiras. E não coloca-la na vala comum dos impuros, dos insensatos. Ou dos rebeldes sem causa. A guerra santa da Senadora é fruto de uma cabeça lúcida, guiada por valores éticos e morais. Por compromissos com as causas populares. Diferente dos seus algozes, oportunistas radicais da subserviência e conivência, que se beneficiam dos podres poderes, por esperteza ou pela incapacidade de ler os fatos, por pura ignorância.