O MAPA DOS CONCHAVOS

No meio às ferramentas de luta dos políticos, o segredo é uma arma indispensável. Na elaboração de qualquer estratégia é necessário levar em conta o sigilo como elemento crucial para o sucesso de qualquer projeto. Torna-se imperioso, em função disso, manter sob sete chaves, fechadinho, toda e qualquer conversa, articulação ou negociação que se faça com o objetivo de se estabelecer futuras alianças.

Por esta razão fica, a priori, prejudicada a precisão de qualquer análise sobre as eleições municipais, como pretendem alguns leitores. E tem aquela historia da semelhança da política com as nuvens, segundo os mineiros. Sabe-se, todavia, que nessas alturas os entendimentos correm solto, as conversas se amiúdam e os cenários gradativamente vão sendo construídos. Há um ano do referido pleito, é perda de tempo pensar que essas questões não são do rol de preocupações dos políticos, considerando a importância que ele vai ter para as eleições ao governo do Estado, na verdade para onde convergem o interesse de todos eles.

Apesar da escassez de informações e dos cuidados com o sigilo dos conchavos, é possível, de posse dos elementos disponíveis se afirmar, com pouca margem de erro, que pelo menos três grupos disputarão pra valer as prefeituras municipais, ênfase maior para Macapá, Santana e Jarí. Um é o que gravita em torno do Governo do Estado e da liderança do Governador Waldez Góes, tendo o PDT como base; outro é o grupo que apóia o atual Prefeito de Macapá e seu partido, o PT; e o terceiro, não necessariamente pela ordem de força, o ligado ao ex-Governador João Capiberibe, atual senador e líder do PSB.

Difícil negar a presença de outras correntes que, embora menores, tem cacife para alterar o jogo e influenciar no seu destino, sem dúvida. Por isso talvez seja até incorreto qualifica-las dessa forma pela expressividade dos políticos nelas abrigados. Tanto o PMDB, liderado pelo senador Sarney, quanto o PSDB de Fátima Pelaes e Antonio Feijão e o PP do Vice Governador Pedro Paulo Dias e do deputado Benedito Dias, têm demonstrado fôlego de gato e desempenhos inusitados nos últimos embates eleitorais, animando-os, quem sabe, a tentar um vôo solo.

Olhe o caso específico do PMDB cuja bancada na AL é a maior entre os partidos, dois senadores da república, secretários de Estado, etc. Razão mais que suficiente para considerá-lo um peso importante nos rumos das composições que se fizerem. O seu problema, como é de domínio público, reside num empecilho até agora irremovível: qualquer entendimento só prosperará se atender os interesses do grupo Pinheiro Borges, fortemente assentado, como costumo dizer, nos fortes e contrafortes do partido, por delegação de seu líder maior, senador Jose Sarney.

Feito este necessário preâmbulo, vamos tentar entender, analisando cada grupo pretendente, o quadro que trata da eleição ao município de Macapá, de todas a mais importante e onde as correntes litigantes concentrarão suas baterias. E comecemos pelo partido do governo, o PDT, em tese o que tem maior poder de fogo.

Logo que Waldez Góes assumiu o governo do Estado, em meio a euforia da vitória, entre suas lideranças havia o senso e o entendimento tácito que Gervásio Oliveira seria o nome do poder emergente na disputa da Prefeitura de Macapá, assim como Sebastião Rocha, o Bala, seria o homem escalado a enfrentar Rosemiro Rocha em Santana, com o aval e apoio do Governador, nos dois maiores e decisivos colégios eleitorais do Estado, redutos eleitorais indispensáveis a prorrogação do projeto de poder iniciado.

Tanto foi que na montagem do secretariado ambos foram agraciados com duas secretarias para as quais havia uma fila interminável de pretendentes. Bala foi para a de saúde e Gervásio para a Seinf, a mais robustas e cobiçadas das secretarias de Estado, capaz de projetar e dar visibilidade necessária a qualquer candidato. Repetia o ex-Governador Capiberibe que usara a fórmula duas vezes, uma vitoriosa com o João 40 na PMM, e outras perdidas com Cláudio Pinho, candidato do PSB ao Governo do Estado, no enfrentamento com Waldez, e Jardel Nunes derrotado em Santana.

Na visão dos políticos, a imagem do tocador de obras é muito importante quando se quer impressionar o eleitor. Ou, segundo me parece mais correto, como artifício para camuflar o que na verdade está por trás de tudo: o tamanho do orçamento ali disponibilizado, capaz não só de erigir prédios, pontes, viadutos, escolas, hospitais, etc, como também transformar um simples mortal, da noite pro dia, em detentor de mandato popular, seja qual for.

Mas não é fácil sustentar uma candidatura, por mais calçada que esteja, quando se está no poder. Esse atiça ambições contidas e desejos antes impossíveis ou nunca sonhado. Foi assim que Gervásio teve sua candidatura solapada pelas disputas internas do poder, envolvidos os interesses dos deputados Lucas Barreto e Jorge Amanajas, reforçado pelo manejo astucioso do grupo comandado por Gutenbergue Jacome, com quem nunca se entendera, que teria (eu disse teria) desencadeado uma campanha de desgaste do candidato nos meios de comunicação.

É fato que essa candidatura, ainda oficialmente colocada, dançou. Tanto que Gervásio, de malas feitas, deve reassumir seu mandato de Deputado Federal e encerrar esse frustrado episódio de sua passagem pelo Governo, contrariando grande expectativa, por ser um elemento do front que conduziu Waldez Góes ao governo do Estado. Gervásio, Bala e o Governador, ao longo da caminhada, formaram uma trindade sólida, importante na sustentação do PDT e na consolidação da vitória. Apesar de tudo, incansável, trabalha tenazmente para fazer seu irmão e companheiro Bala, o seu sucessor por ser o único, segundo sustenta, que tem bagagem e autoridade para postular a indicação do partido. A mudança de domicilio eleitoral de Bala, em parte por sua inspiração, foi o bálsamo encontrado para amenizar as dores de sua derrocada dentro do grupo de sustentação do poder.

É erro imaginar que os acontecimentos favoreçam Lucas Barreto ou /e Jorge Amanajas. Lucas Barreto - um deputado até então de fraca atuação parlamentar e acostumado as manobras de bastidores, tem contra si alguns fatores. No partido há enormes resistências a vencer. Não se reconhece, no deputado, um pedetista autêntico mas alguém que tem se aproveitado mais que servido ao partido. Em sua primeira fase de PDT essa postura lhe teria rendido desavenças enormes com suas lideranças, entre elas Vitória Chagas, Secretária de Educação e sua Presidente de Honra, levando-o na ocasião a migrar para o PL e daí para outros partidos até seu retorno, na carona de uma vitória desenhada e anunciada.

Jorge Amanajas, ao contrário, carrega alguns elementos favoráveis, embora possa parecer estranho. Em um desses acertos da campanha de Waldez, algumas lideranças envolvidas lhe teriam garantido a indicação. Sua recente mudança para o PDT, manobra com precisão cirúrgica, teve o claro objetivo de facilitar as coisas, torna-la palatável. Bem inserido, carrega três mandatos nas costas e ar de bom moço. É obediente e fiel, segundo o poder, ingredientes indispensáveis para quem pretende ganhar a preferência meio a tantos pretendentes. Muito diferente da autonomia, arrogância, empáfia e ambição desenfreada do seu colega Barreto. E mais: se contentaria em ser só prefeito. E quem sabe Deputado Federal. E quem sabe, senador. Já Lucas.....

Neste ambiente de disputa, não é prudente esquecer a jovem estrela pedetista e deputado Federal David Alcolumbre. Dono de uma carreira meteórica, decidiu ser o céu o seu limite e quanto antes alcança-lo, melhor. Trabalha muito, segundo diz, por sugestão do Setentrião e daquele que considera o seu maior eleitor, o Senador José Sarney. Não importa ser Sarney um peemedebista e amigo de todos os candidatos, qualquer que seja a sigla. Aparece bem em algumas pesquisas, distribui mimos na periferia da cidade e aposta ganhar a preferência do colégio eleitoral do PDT no momento decisivo.Tem um esquema de filiação azeitado e não vai deixar barato, se realmente for para o embate. É bom prestar atenção.

Finalmente Sebastião Rocha: um capítulo á parte no PDT. Mas isso só na semana que vem junto com o drama de João Henrique, o dilema dos Capiberibe, a solidão de Fátima Pelaes, a escravidão do PMDB e o beco sem saída em que estão metido os Dias e seu PP. Aguardem.