O MAPA DOS CONCHAVOS II

Em meio às intensas negociações que corriam para formação da coligação que levaria Waldez à vitória em 2002, o então senador Sebastião Rocha, o Bala , vivia o seu drama pessoal.Em final de mandato, candidato a reeleição, tinha uma decisão crucial nas mãos.Com amplo apoio dentro do PDT , com um mandato cumprido com eficiência e dedicação - nada espetaculoso, é verdade, estava convencido de merecer uma nova oportunidade para voltar a câmara alta da república.


O seu drama residia num fato real e palpável chamado João Bosco Papaleo Paes , então PTB, com uma candidatura posta ao governo do estado, em confronto com o amigo Waldez Góes, ainda preferido nas pesquisas.Leituras da época indicavam que, se insistisse na idéia, Papaleo colocaria em risco a vitória final de ambos e favoreceria o(s) candidato(s) da situação, pelo racha que causaria nas bases da oposição.

Vencido os fatos, fica difícil se constatar a veracidade das suspeitas num outro cenário que não o vivido.Mas Bala sabia que suas chances seriam maiores caso sua candidatura fosse prevalente dentro da coligação . Melhor ainda seria se, mesmo que tivesse de ter outro parceiro na chapa , não fosse ele do calibre de Papaleo. Aceito o arranjo, o resultado , previsível, foi o que ocorreu.

No jargão político falou-se que Sebastião Rocha “ foi pro sacrifício”. Diante de tantas evidencias e argumentos Bala não resistiu. Facilitou a eleição do amigo Waldez ao abrir passagem para Papaleo e mais que tudo, anunciou a morte antecipada de sua candidatura em nome da causa. O sacrifício consentido, merecia compensações no futuro e vieram os compromissos.Não só pelo gesto mas também pelo que Bala representou na sustentação do PDT e pela sincera amizade ao governador.Por isso falava-se abertamente que teria direito - por mérito , ao que quisesse dentro do futuro governo.

Escolheu, por livre arbítrio, contra as pressões dos que preferiam vê-lo na influente Segov , a problemática Secretaria de Saúde.Seja pela afinidade com a área ou por significar um desafio que ele , como médico, queria enfrentar e vencer para ajudar o governo.E depois a Segov tem aquela relação com os deputados, sempre difícil e conflituosa , que preferiu deixar de lado , poupando-se de futuros enfrentamentos.

De contra -peso a candidatura à Prefeitura de Santana , um sonho acalentado há anos, abortado nos idos de 90, vitimado por Geovani Borges, num pleito apertadíssimo.Quando tudo parecia certo, Bala resolveu mudar os rumos de seu projeto político.Com um olho em Brasília, para onde pensa retornar, mudou de domicilio eleitoral para Macapá, um robusto colégio eleitoral que espera conquistar com o seu trabalho na saúde.Essa foi uma das razões. A outra foi evitar o confronto com o primo Rosemiro Rocha , que concorre a reeleição, que tantos dissabores familiares causaram no passado.

A sua pré-candidatura a prefeitura do município de Macapá tem muitos defensores dentro do PDT , onde goza prestígio e força política.Ela se coloca no momento em que a postulação de Gervásio, outro candidato tido como certo, perde em consistência e espaço.É senso comum que Bala , o governador Waldez Góes , Gervásio Oliveira , Vitória Chagas e outros contados a dedo, têm a cara do PDT.Hoje até Gervásio cerra fileira a seu favor. Daí ser impensável que a postulação de Bala não tenha o apoio do Setentrião, depois de reunidos todos esses elementos.

Os concorrentes , situados dentro e fora do PDT , sabem disso. Quando perguntado , Bala evita expor-se, pois sabe o risco que corre.Como titular da pasta da saúde admite que nada adiantará essa preferência se não conquistar a mente e o coração dos munícipes de Macapá com uma boa gestão.São inúmeros e crônicos os problemas do setor e muito trabalho a fazer. Ele, o Governador e assessores sabem disso.Luta contra o tempo, esse cada vez menor, em razão da desincompatibilização exigida pela lei eleitoral.Por isso o sucesso de sua candidatura está , em tudo , nas mãos do Setentrião.

Qual o drama de João Henrique, afinal ? Candidato a reeleição pelo PT e não mais pelo musculoso PSB da época do Governo Capiberibe , saído do anonimato para a prefeitura do município de Macapá em 2000 , João Henrique se debate em meio a crise financeira que assola os municípios brasileiros, uma ruma de demandas urbanas herdadas de gestões anteriores e de quebra a falta do apoio prometido pelo PT nacional e pelo governo estadual que ajudou eleger.

Sabemos que em matéria de urbanismo a cidade de Macapá é uma tragédia.Vitima da favelização consentida por prefeitos politiqueiros e irresponsáveis , da ocupação desordenada de suas ressacas, as que se salvaram de aterramento criminoso e da migração descontrolada, uma das maiores do país.Acrescente-se a isso um serviço básico de saúde deficiente, a maioria dos bairros sem asfalto, poeira e buraqueira sem fim, os entulhos acumulados nas vias públicas desprovidas de meio fio e calçamento, as obras paralisadas e inacabadas etc e tal.Um quadro difícil quando se pensa em reeleição.

Enquanto teve dinheiro João Henrique foi bem.Sem recursos agoniza diante do excesso de problemas que são muitos no verão e serão mais no inverno que já dá as caras. E viverá , por conta disso , o momento mais difícil do seu governo.Justo na ante sala do pleito que selará seu destino político.Alguns amigos reclamam que sua saída do PSB, hoje melhor avaliada , foi um equívoco.Perdeu um valioso aliado e do PT nacional não veio , ainda , a compensação esperada.Nem do governo do estado,que como disse, apoiou e foi peça fundamental na vitória do segundo turno.

Aliás do PT local só herdou dificuldades, dizem.Não bastasse a divisão interna , tem os vários “ desempregados” do governo Dalva , que tenta abrigá-los numa prefeitura recheada de ex-aliados do PSB.Esses, ao contrário dos petistas que deixaram furos na gestão do Estado ,são tidos como eficientes e leais.Razão por que o deputado Randolfo Rodrigues briga com JH que refugou nomear um auxilia seu , em episódio recente.Conclusão: o deputado já é candidato às prévias, antes descartadas e parte do acordo que trouxe João ao PT. Para complicar as brigas de sempre com o funcionalismo e Câmara Municipal.

No que se refere às alianças vai disputar com o PSB - caso não haja um acordo de última hora, parceiros históricos situados à esquerda, como o PCB, PC do B e quem sabe o PV , hoje descontente com o governo estadual. Pouca coisa, sem dúvida.Não deve contar com o PDT , correndo em raia própria, nem com o PMDB e Sarney, aliados circunstanciais a nível nacional , cujos interesses locais se sobrepõem aqueles, sem dúvida.Nem com o PPS, ideologicamente perdido do resto do Brasil, que se curva as conveniências de seu líder maior, Hildegardo Alencar , hoje secretário de governo do PDT.Logo...

O atual Prefeito sabe que seu retorno a PMM vai depender mais das alianças possíveis aqui que do apoio de Brasília.O PT nunca foi bem nas vezes que fez carreira solo em eleições majoritárias.Precisa de parceiros , não só identificáveis como fortes.O PL não é , nem tão pouco o PC do B.A parceria preferencial é o PSB cuja negociação , à primeira vista impossível, é capaz de sair e já existem interessados nisso.Em política não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe.E boi costuma voar. É esperar pra ver.

A seguir o dilema dos Capiberibe, a escravidão do PMDB e o beco sem saída do renovado Partido Progressista sob o comando dos irmãos Dias.Mas isto só na próxima semana.