O MAPA DOS CONCHAVOS (FINAL)

É impossível negar ao PSB, liderado pelo ex-Governador João Alberto Capiberibe, o status de força política com grande influência no Estado.Embora tenha experimentado o definhamento natural dos períodos pós-governo, o encontro estadual realizado em outubro mostrou que o partido está vivo e forte, mesmo diante da impiedosa oposição que sofre de todos os lados e níveis.

Essa força pode vir do carisma pessoal do senador ou da longevidade do seu governo, onde impôs um estilo personalista e um programa inovador, mas bastante combatido, que notabilizou-se por proteger, com rigor, os recursos naturais da “sanha capitalista“ e defender a exploração racional dessas riquezas, com agregação de valores e distribuição dos seus benefícios com a população, como pregava. Ou esta força pode advir do desgaste que vem passando o atual governo.

Capiberibe foi mais fundo: desfraldou bandeira do PDSA e estabeleceu uma relação belicosa com quantos se opunham às idéias e programa do seu governo. Não escaparam sequer os aliados de primeira hora, partidos políticos e lideranças. Brigou feio com a Assembléia Legislativa e com os Poderes, por uma distribuição justa e equilibrada do orçamento do Estado, pequeno para atender as demandas sociais. Rechaçou cassação e ameaças de vida. Tratou a imprensa a pão e água e manteve as portas do Setentrião fechadas aos adversários de qualquer coloração e calibre.

Ao final rompeu com o PT, um aliado histórico, somando aí mais uma perda importante.E novamente impulsionado pela maneira heterodoxa como se relaciona com a sua base de sustentação política e parceiros, que esperavam uma partilha maior do exercício do poder. Afinal estavam ligados por princípios ideológicos e identidade programática. Além da prática, mais uma vez equivocada, de impor sua vontade pessoal à concepção da proposta de governo, que deveria ser resultado de construção coletiva.

Em vista desse quadro insólito, o senador e seu grupo tem um dilema a vencer: negociar agora a melhor via que conduza a maiores ganhos nas disputas políticas futuras. Apesar das alternativas, falta a bússula que indique, com precisão, o caminho seguro e o melhor parceiro. Trilhar sozinho parece arriscado mesmo diante da conjuntura favorável do momento. Precisa capitalizar o descontentamento com o governo e unir uma frente, como fez no passado com Barcelos em episódio político histórico. Falta confiança e adeptos para levar adiante a tarefa.

Chances mais reduzidas pela resistência do PT e pela perda do João 40. Esse, enquanto Prefeito, poderia ser o elemento catalisador se ainda fosse PSB. Com três candidaturas colocadas : o sempre Cláudio Pinho, a da deputada Janete Capiberibe e de Ruy Smith, uma novidade em alta entre os socialistas, o ex-Governador busca negociar alianças num campo escasso de bons parceiros, esses arredios e desconfiados com a fama centralizadora de conduzir do Senador, um empecilho sem dúvida.

O PSB poderá optar por coligar com os tucanos do PSDB - seguindo o exemplo exitoso de Jorge Viana(PT) no Acre. Mesmo que a ex-deputada Fátima Pelaes tenha lançado a sua candidatura à Prefeitura de Macapá, como falam os noticiários, há espaço para conversa. A líder tucana conviveu bem com o governo Capiberibe, que considera Fátima com bom transito nas camadas pobres da população e possuidora de um trunfo precioso, cobiçado e invejado: tempo de televisão, um dos maiores do Estado. Valioso para quem diz tem muita coisa a falar e precisa falar.

Acho que o PSB, se faltar condições logísticas para reaproximar-se do PT e dos nanicos da esquerda, opção natural e preferencial, seguirá a trilha da social democracia com quem se unirá, à princípio em Macapá e Santana, onde Antonio Feijão e Jardel Nunes já se lançaram, em Pedra Branca e n’outros municípios, numa aliança que não deve ser subestimada. Um socialista dizia, diante do quadro, semblante rútilo de convicção, ser o PSDB suficiente para o ex-Governador retomar o poder. Acredita ele.

Quanto a escravidão do PMDB, repito o que tenho dito sempre: o legado de Ulisses Guimarães no Amapá se comporta segundo os interesses do grupo liderado pelo ex-senador Gilvan Borges ou para atender as conveniências, os acordos e os mimos do senador José Sarney, liderança incontestável dentro do partido, sobre o qual exerce uma espécie de ditadura branca. Ou ela é resultado da conjugação dessas duas condições.

Sarney pensava se despedir da política com este mandato, dádiva do generoso povo do Amapá, como costuma dizer. Mudou repentinamente de idéia pelo surgimento extemporâneo e factual da candidatura da filha Roseana Sarney à Presidência da República, detonada pelos episódios da Lunus, denunciados pela imprensa brasileira. Baixada a poeira, elegeu a filha ao Senado pelo Maranhão, e adiou o projeto para o qual sua presença naquela casa passou ser imperiosa, indispensável.

Comanda um projeto complicadíssimo e que exige muita engenharia política. Atrelou o PMDB ao governo Lula de quem espera a recompensa de fazer a filha vice no mandato seguinte, catapulta para nova candidatura presidencial na frente, quando imagina que o rumoroso caso Lunus tenha sido definitivamente soterrado e esquecido pelo povo. Tudo bem que Roseana é do PFL, estranharia alguém, mas que diferença isso faz? Para lá talvez nenhuma, mas aqui isso faz muita.

Enquanto Sarney lidar com este projeto, o PMDB local e suas nascentes lideranças terão suas aspirações dependentes do seu encaminhamento. Ao sabor do que for melhor para acomodar os incontáveis apoios que Sarney precisa para garantir a sua reeleição ao Senado. Tudo girará em torno disso e não se fala mais nisso. Depois, quem sabe.....

O que sobrar desses arranjos, não tenham dúvidas, ficará com o grupo Pinheiro Borges que domina todas as instancias partidárias. Desta situação ninguém escapa. Do neo-peemedebista Jaime Nunes, nova estrela do partido e representante do segmento empresarial, ao carismático Papaléo Paes que insiste em viver à sombra do homem, mesmo detendo um imenso patrimônio eleitoral.

Finalmente o PP dos Dias, quer realiza um esforço danado para crescer, trazendo para seus quadros lideranças da política regional. O objetivo é manter o espaço conquistado com a vice-Governadoria, da qual acabou refém. O Partido Progressista, segundo alguns, chegou além do que era possível chegar, não tendo mais para onde ir na atual estrutura de poder, apesar da desenvoltura de Pedro Paulo Dias, muito ouvido e influente no governo. A candidatura do Deputado Benedito Dias à PMM, como ocorrera no pleito anterior, é um sonho de verão por falta de apoio e fôlego. Em 2000 fazia sentido pois precisava alargar seu horizonte eleitoral. Tanto alargou que lhe rendeu a culpa da derrota de Papaleo, com quem disputou o mesmo espaço eleitoral, favorecendo a João Henrique.

Resta ao PP conduzir-se no Governo de maneira fortalecer-se no núcleo de poder para sobreviver. A ordem é manter Pedro Paulo na vice de Waldez na reeleição. Tarefa cada dia mais difícil pela vontade ostensiva de Lucas Barreto, que na AL comanda uma respeitável tropa de choque, uma anomalia do sistema segundo comentários maliciosos ouvidos de setores do governo. É nesse beco sem saída que está metido o PP dos irmãos Dias.

Essa análise, em três partes, não pretende ser precisa. Pode não acertar na mosca, como se diz. Mas indica uma tendência. Depois, é razoável considerar, pisamos em um terreno extremamente movediço onde valores maiores como princípio e ética pouco contam quando se trata de ganhar qualquer disputa eleitoral. Eleição é reino do vale tudo. Depois tem a semelhança da política com as nuvens...., o boi quer voar, etc. e tal.