MUTIRÃO E ELEIÇÃO, RIMA PERFEITA

 

Deu na televisão : governo e prefeituras assinam convenio para limpeza da cidade. As prefeituras no caso são as de Macapá e Santana, justamente os dois maiores colégios eleitorais do Estado, sendo que há promessa de estender o beneficio a todas as demais prefeituras. Os recursos já advirão do Fundo dos Municípios recém criado pelo governo para auxiliar os prefeitos conforme prometera Waldez Góes na campanha eleitoral.

As ações, ao que se sabe, serão desenvolvidas em parceria. O governo faz uma parte e a prefeitura outra. Isto demonstra que o governo, ao invés de transferir a tarefa pura e simplesmente aos municípios, não abre mão de participar das mesmas, levando em conta o potencial eleitoral que medidas dessa natureza possam render na ante véspera das eleições municipais, na qual tem grande interesse.

Até aí nada de novo. Capiberibe fez o mesmo com João Henrique, e Barcellos, contrariando os preceitos legais e o direito jurisdicional, por inúmeras vezes chamou pra si a exclusividade da ação e de inúmeras outras da competência do Município. E salvo engano, foi ele o inventor dos tais “mutirões da limpeza pública” e das campanhas da cidadania - aquelas em que o cidadão obtém documentos e assistência do Estado em tempo real, sempre ao redor dos pleitos eleitorais.

O ruim dessas campanhas é que elas são recursos paliativos. Não cortam os problemas na raiz, como deveriam, servindo tão somente como combustível eleitoral. Daí, repito, o governo fazer questão de participar, abdicando de transferir, como seria o correto, a tarefa aos prefeitos, cuja responsabilidade é justamente tratar das cidades.

Este caráter provisório da ação dos governos, é um negócio sério e que merece uma discussão competente porque envolve recursos públicos. E é bom nos determos nesta questão, uma vez que, independente do governo, aqui se criou a mania de se construir os projetos, alguns até bonitos e interessantes, em seguida abandoná-los ao deus dará, e mais na frente submete-los à infindáveis reformas acompanhadas de seus aditivos, que fazem a felicidade de qualquer empreiteiro. É o que se convencionou chamar industria da reforma.

Vejamos o caso do bairro Igarapé das Mulheres, ou Perpetuo Socorro, se preferirem. Não se conta mais nos dedos das mãos as vezes em que o mesmo foi submetido a esse tipo de tratamento. Nem a quantidade de sujeira de lá retirada. O resultado pode ser visto dois ou três meses depois, quando tudo volta ao que era. E não tem conta o número de vezes que se tem dito que o problema do bairro, que abriga índices alarmantes de endemias, é de urbanização e consciência cívica.

Não seria preciso se dizer, também, que possivelmente essas ações fossem desnecessárias se, ao invés delas, os governos optassem por atacar a questão no seu ponto fundamental que é a urbanização desses bairros. E urbanizar exige saneamento básico, construção de meio fio e asfaltamento de suas vias, a maioria delas estreitas e fáceis de se trabalhar. Onde isso foi feito, como no Boné Azul, salvo engano, erradicou-se não só as endemias como a necessidade dos mutirões.

A falta de idéias novas em qualquer governo incomoda, sem dúvida. Estas ações são velhas conhecidas nossas e estão sempre associadas às campanhas eleitorais e focadas nessa direção, lamentavelmente. A falta de imaginação é uma doença crônica que assola os governos que se sucedem, como são esses indefectíveis mutirões e campanhas cívicas que se repetem à exaustão, mas que não eliminam a causa que alimenta a existência dos mesmos. O que nos leva a pensar se governar é só isso, ou se não existe algo melhor a se fazer pelo povo, pela cidade, pelo Estado.