UMA PEDRA NO CAMINHO

 

Em se tratando do PMDB qualquer negociação política passa pela seara da família Borges, solidamente instalada no forte e contra forte do partido no Estado, assentada numa razão singular: o apoio irrestrito do chefe José Sarney.E de lambuja tem ainda , para consumo interno , o trunfo de carregar o consentimento do velho cacique Azevedo Costa , ex-quase tudo do partido , inclusive Presidente, que ao contrário do que se possa pensar, é visto com respeito pelo grupo e tem lá suas influencias.

Azevedo Costa , se bem me lembro , foi um dos responsáveis, se não o principal , pela entrada do ex-Presidente no partido, apesar da resistência e do voto contrário do velho Ulisses Guimarães, então Presidente nacional do PMDB, e de certa forma desafeto de Sarney no plano nacional.Por sinal que gente ligada aos Costas entendem que Sarney nunca dedicou ao fato e muito menos ao Azevedo , durante todo esse tempo, o devido respeito e importância.

Este episódio , de transcendência fundamental para a política nacional, transferiu a liderança do caudilho maranhense do PFL para o PMDB , num momento difícil de sua carreira política, em que deixou sob cerradas críticas a Presidência da República, desgaste produzido por uma inflação monumental e sem controle e , de quebra , a completa desorganização da vida nacional , quando era nítido, na cabeça de qualquer cidadão , que o Brasil descia celeremente, sem comando , ladeira abaixo , rumo ao abismo.

Para completar a sua tragédia - a do ex-Presidente , não havia espaço político em seu reduto natural, o Maranhão , e partido, o PFL , capaz de abrigar a sua aspiração de momento que era a senatoria, a única capaz de lhe devolver ao cenário nacional e a sobrevivência política.

Não se pode negar também papel de relevância ao episódio ao ex-Governador Nova da Costa , conterrâneo e amigo que lhe deu a mão naquele momento crucial ao abrir o caminho para a sua vinda para o PMDB, porta só aberta no Amapá pela junção de várias circunstancias que foram, ao atual senador amapaense, gratamente favoráveis, como ser aquela a primeira eleição para o Senado de nossa história, a sedução de abrigar um político da estatura de um Ex-Presidente da República , a distância que nos separa do resto do Brasil e , a mais decisiva de todas, a ausência de capacidade crítica da população para avaliar, devidamente, o momento político nacional.

No plano regional ,diz o nosso folclore político que aos primeiros sintomas de ingerência e de tentativa de controle do partido por Sarney, Azevedo Costa teria se socorrido a Ulisses Guimarães na busca de aconselhamento e implementação de medidas que impedissem a tentativa.Em resposta o velho cacique teria lavado as mãos ao dizer-lhe que o havia advertido dessa possibilidade , sem ser levado em conta.”Agora descasque o abacaxi sozinho” , teria dito.

A este fato histórico é impossível não se aduzir a iniciativa do grupo Borges, do então PFL , de impedir - por via judicial e de forma incisiva, a candidatura do ex-Presidente , apoiados numa questão simplória , mas capital, que era argüição da falta do requisito básico para o exercício do direito a candidatura, exigido a qualquer um, o domicílio eleitoral, que Sarney não possuía como era sabido de todos dessas paragens. Quanto mais da justiça que provavelmente rendeu-se a grandeza do político postulante, e remeteu o processo para uma daquelas gavetas onde dormem , para sempre, as questões que envolvem gente graúda desse país.

A pintura deste quadro e a revelação desse episódio, se faz na tentativa de entender o prestigio que os Borges detém com o Senador , pacto de reciprocidade estabelecido num momento qualquer da história em que as velhas diferenças foram vencidas.Resultou na petrificação da família no domínio do PMDB local, na submissão de figuras histórica do partido como os Costas , os Uchoas , e mais recentemente Jurandil Juarez , um político promissor mas sem horizontes, e qualquer outra liderança que queira se opor a essa situação, como é o caso recente do Deputado Dalton Matins que pleiteia , sem êxito , o Diretório Municipal, feito quem malha em ferro frio.

A verdade é que os Borges sempre foram combativos e ferrenhos militantes da política regional.Desde os tempos do velho Miguel Pinheiro, o patriarca.E cunharam a imagem de bons de briga.Fizeram vereadores, deputados , prefeitos e senador, no caso Gilvan Borges , cuja posição lhe rendeu o comando do partido no Estado , naturalmente com o aval de Sarney que prefere atuar como moderador das questões regionais a ter que comandar e arbitrar os conflitos internos.

Esta posição do Senador, segundo um peemedebista insatisfeito , favorece sempre aos interesses da família que mesmo sem mandato possui, além do inarredável apoio político de Sarney , uma ferramenta poderosa que é o seu complexo de comunicação , sempre a disposição dos interesses políticos do presidente do Senado.Por tudo o que foi dito fica difícil - a qualquer movimento que se faça com esse objetivo, mesmo que seja para melhorar a imagem e a performance do PMDB, mudar o quadro atual.

Qualquer disputa política que venha submeter-se, o PMDB tem que atender , antes de tudo, aos interesses dos Borges , sempre colocado na mesa de qualquer negociação.Isto , no entendimento de um peemedebista , vem impedindo e até matando no nascedouro , nomes interessantes dentro do partido que a médio e longo prazo poderiam devolver ao PMDB a esperança de governar o Amapá.

A vinda do Senador Papaleo Paes , ex- PTB - há quem veja desta forma , pode representar a abertura de novos caminhos dentro do partido que busca se fortalecer e criar alternativas com vistas ao futuro. Por conta de igual prestígio que tem junto a Sarney,considerado por muitos seu autor político.Mais oxigenação se David Alcolumbre vier também por inspiração do senador, que passa boa parte do tempo garimpando forças políticas locais para gravitar sob sua influência e manter a sua sobrevivência num cenário onde tem dificuldades de circular por conta própria como faz no Maranhão, seu habitat natural.

E mudança maior se operará ainda nos destinos do PMDB se o governador Waldez Góes vier a fazer parte desta órbita, no bojo da reforma política e definhamento do PDT , sonho e trunfo maior com que trabalha o ex-Presidente , figura cada vez mais influente no Governo , apesar de ter achado na eleição passada que Dalva Figueiredo seria melhor para o Amapá, é bom nunca esquecer.

Entre muitas coisas , o futuro a Deus pertence.Da mesma forma que reconhecemos que a política é construída em cima de fatos e boatos , de boas e más intenções, de ações positivas e negativas , da vontade e do poder de quem a usa para o bem ou para o mau.Daí nada mais nos restar que esperar o andar da carruagem.Qualquer que seja o rumo que venha a trilhar , certamente nos levará a um fato consumado , desta feita real.No PMDB tem gente rezando e fazendo figa todos os dias.