Queda de Braço

 

Há uma crise política no governo, difícil de abafar.Nada no entanto que não tenha solução.Gestada ainda durante a campanha eleitoral, foi sufocada pela euforia da vitória mas acabou aflorando por conta de posicionamentos e acomodações que se seguiram a composição do primeiro escalão de governo, destribuição de cargos e empregos, e a apresentação prematuras de candidaturas , todas absolutamente naturais, já visando a próxima rodada eleitoral.

O abalo não é nada pequeno.Nem desprezível. Tão significativo que tem exigido a participação de todos no governo para apagar o fogo e abortar a rebelião que ainda caminha para uma definição.Necessário e indispensável para um governo que precisa executar, com eficiência, seu programa e suas políticas públicas. Muito mais importante que administrar vaidades e ambições pessoais desmedidas,dissociadas do interesse coletivo.

O problema é que se estabeleceu um poder paralelo e oculto que tenta subverter a ordem natural das coisas e quer exercer o comando do processo político e administrativo do Governo, à revelia das lideranças tradicionais do PDT. Partido que chegou ao poder graças a manutenção, ao longo desses anos, da unidade e identificação de suas lideranças maiores.Lideranças que tem um projeto concreto para o Amapá e que tem o respeito de suas bases, agora objeto das artimanhas engendradas por esse poder oculto.

Fica claro também que este açodamento e disputa se deve, sem dúvida, a convicção que o Governo tem todos os instrumentos necessários para eleger a maioria dos Prefeitos no vindouro pleito, partindo da presunção, nem tanto apurada, que vai faltar adversário a altura do governo, por conta da aparente fragilidade do PT e do PSB , cujo divórcio torna a participação de ambos, hoje, com remotas chances de sucesso.

Diante de tanta certeza não falta quem se deixe picar pela tal mosca azul, e se considere melhor e com maiores chances de vitória.Reside aí o nó. Gervasio Oliveira, em Macapá, e Sebastião Rocha em Santana, por estarem na vitrine e serem naturais candidatos e ainda por cima pertencerem a côrte íntima do Setentrião, passaram de generais da vitória a vítimas de trama urdida sorrateiramente que visa, sem qualquer dúvida, o alijamento de ambos do projeto política recém implantado.

Quem acostumou-se a acompanhar os bastidores da política regional sabe que, o que está em curso não é uma dessas briguinhas de alcova ou coisa semelhante.Briga-se por espaço e por posição política privilegiada com os olhos focados na cadeira de Waldez.Em que tempo, sinceramente não sei, tamanha a volatilidade da vontade dos políticos.Pode ser em 2010 ou quem sabe já em 2006.

O PDT do Amapá , como qualquer partido forjado a esquerda do espectro político brasileiro, leva muito em conta esta questão da militância.A presença no dia a dia da agremiação sempre foi considerada importante na hora de se aferir o grau de fidelidade e real interesse pelo partido.À direita e para alguns detentores de mandato, o partido não passa de uma mula.Ou algo parecido.

Em qualquer eleição proporcional é muito importante somar votos.Como detentores de mandatos e de votos, os partidos pragmaticamente toleram a presença desses políticos, mesmo diante do fato da maioria deles não ligarem a mínima para o resultado geral das eleições e para o desempenho do partido, desde que garantam a sua sobrevivência.Nas convenções a indicação de seus nomes não recebe qualquer contestação apesar da convivência provar o seu descompromisso com as teses e programas partidários.

A coisa muda de cenário quando se chega ao Governo, visto que novos horizontes se descortinam.O Partido ganha musculatura, cargos , empregos e poder. Basta uma mesinha na esquina , algumas folhas de papel e uma caneta à mão para se tornar o maior partido do Ocidente como um dia foi o PFL. Assim é a voga, sai governo entra governo, engordam e definham sem qualquer compromisso com a História verdadeira.

Diante de tudo isto nos deparamos com mais uma verdade absolutamente verdadeira: os parlamentares do PDT, além do que já lhe foi permitido ter no atual governo querem muito mais, como aliás é de sua natureza.Já não basta só ter assento no Governo , nomear os parentes ou ajudar os amigos com suas firmas e negócios nebulosos .

Querem sempre mais a medida em que se cede.O Governo por ceder demais , além do que seria justo e correto ceder, atiçou a tentação de políticos ligados ao Governo que almejam o poder total e absoluto. Não há como dissociar este movimento todo da aspiração recente do deputado Lucas Barreto, Presidente da Assembléia legislativa, membro do PDT, que mesmo sabendo que o deputado Gervásio Oliveira é o nome de preferência do Setentrião e da base do partido à Prefeitura de Macapá, coloca-se como postulante , quebrando um protocolo já aceito e acordado com os vários setores do partido recem entronizado no poder.

O Deputado e seus aliados, visíveis e invisíveis, querem o poder. E para lá chegarem precisam do partido na mão , cujo controle não tem por que nunca acharam necessário ter, por não ter necessidade de ter .Agora é preciso , daí o embate hoje aberto que se trava para controlar os colégios internos do partido que indicarão os candidatos do Governo, logo do PDT, aos mais importantes municípios do Estado, um passo decisivo rumo ao Setentrião, como sabemos.

E esta refrega - ao contrário da legitimidade que possa aparentar , nada tem de democrática , não se desenrrola em nome de princípios e nem sob a égide da ética e da boa convivência.Não é fácil resistir as forças, armas e instrumentos de convencimento dessa turma.Ela vai ser uma dura prova ao Governo que vai ter que se decidir entre os companheiros de primeira hora e que construíram efetivamente o poder, tijolo por tijolo, ou , como qualifica um histórico pedetista, ou pelos comensais e convivas de última hora desacostumados ao respeito e cumprimento de regras, e a construção de projetos coletivos.

Governar é transpor obstáculos, vencer desafios, construir sonhos.Para aqui chegar , no plano da construção dos sonhos é preciso unidade, lealdade, liderança,decisão, respeito e discernimento.Muitas provas virão ainda.O Governo mal começou, mas é indispensável que já nesse momento de crise dê uma resposta inequívoca que tem o controle da situação e que o governo se guia pela cabeça de sua liderança maior, inspirada em compromissos inarredáveis com o interesse público.Se assim não for, que o circo arda até virar pó.