QUEDA DE BRAÇO II

Essa coisa de se tratar questões públicas e de interesse da sociedade na obscuridade ou arremessar qualquer problema para debaixo do tapete é sem dúvida um traço do caráter brasileiro. Como é também o jeitinho nosso de ignorá-los e adiar as soluções cabíveis para o final dos tempos.

Esse tratamento dado por nossas autoridades se constitui, certamente, uma das causas do crônico atraso que o Brasil penosamente carrega se comparado a outros países, que nos obriga patinar no terceiro mundo ou ostentar o indefectível rótulo de “país em desenvolvimento”, de onde nunca arredamos pé, apesar da grandeza de nossas riquezas e do tamanho de nossa economia.

Daí decorre que quando essas questões maquinadas nos bastidores, mas que dizem respeito a saúde do Estado e da sociedade vem à público, causa mal estar e afeta o humor dos atores do processo, crentes que o cidadão é burro, não percebe, não abstrai e por essa razão não tem massa crítica.

Como também é uma grande ingenuidade pensar que estas coisas não chegam a opinião pública. Chega e chega forte feito uma bola de neve que se forma ladeira abaixo. Qualquer que seja a situação sempre será preciso se dar uma resposta ao sumiço do elefante da sala de visitas. É impossível ignorar o seu paradeiro ou esconder o paquiderme por sob qualquer tapete.

No Amapá de hoje, como no de antes, é muito arriscado se falar e cobrar coisas sérias. Por isso entendemos porque muito do que abordei no artigo anterior provocou prurido e aborreceu setores do poder, principalmente daqueles que preferem as trevas à luz do dia como campo de batalha. O objetivo é mesmo esse: manter tudo por sob o tapete, ainda que depois o cheiro fique insuportável. Inadmissível aceitar, ainda que fossem questões relevantes do Estado. É uma imposição ao exercício da acomodação, do faz de conta e suas desastrosas conseqüências.

A literatura está repleta de episódios graves de refregas que se seguiram a instalação do poder. Desde os tempos imemorias. Da Roma antiga dos Cesares, da Rússia e seus Czares passando pela corte francesa de Luiz XV, atravessando celeremente os tempos até os dias de hoje, ensinando que as disputas pelo comando não acabam com as batalhas oficiais vencidas.

Este é um processo penoso ao qual todo governo é submetido e muitas das vezes levado a ceifar cabeças amigas e insuspeitas com conseqüências danosas ao exercício do poder. A embriagues vai mais além. Corrói as entranhas do governo, atiça a ganância, a sede do poder, da mais valia, do mais mandar, do traficar influência, ditar regras, nomear, exonerar , do prender e arrebentar. Apesar da história não podemos achar isso previsível e natural. Há de se preservar e respeitar, antes de qualquer coisa, o interesse público e o compromisso assumido com os companheiros, ao longo da campanha.

Em processos dessa grandeza e gravidade é fundamental o papel do líder a quem cabe, com sua autoridade e sabedoria, mediar as questões em litígio dentro do grupo conflagrado. Respaldado no respeito às regras e nos compromissos pactuados ao longo da caminhada, visando preservar a unidade, harmonia e equilíbrio do conjunto, indispensáveis a obtenção dos resultados perseguidos.

Isto vale para qualquer partido e grupo político constituído com esse fim. Caso contrário estabelece-se essa disputa fratricida e insana, movida por ambições desenfreadas, quase sempre descoladas do público, por isso pessoal, que debilita os alicerces de sustentação, primeiro do líder, depois do grupo e por fim do poder.

O economista americano John Nash ( lembram de ¨ Uma Mente Brilhante¨, o filme ?) ganhou um Nobel em Economia ao desenvolver a sua teoria do equilíbrio em que afirma que o resultado da negociação e mediação de qualquer conflito, será melhor absorvido se as partes conflagradas receberem o máximo de beneficio após o acordo. Uma sábia lição com aplicações em várias áreas do conhecimento.

Mas esta não é tarefa para qualquer um: para tanto é preciso competência e visão estratégica. Qualquer poder que se instale enfrentará problemas dessa natureza e complexidade, próprios da atividade política. É preciso contar sempre com agentes confiáveis, hábeis negociadores, gente com percepção aguçada e capaz de propor soluções aos conflitos e situações de crise.

É senso comum que falta ao atual governo essa pessoa. Com identidade e rosto. Com o crachá à vista. Pensou-se que tal tarefa ficaria ao encargo do Gabinete Civil, como é comum a qualquer governo, à frente o Vice Governador Pedro Paulo Dias, considerado uma pessoa de fino trato, bom negociador, transito, acostumado a costurar acordos, atributos revelados e reconhecidos em meio a campanha eleitoral.

Segundo os murmúrios das coxias, fez-se exatamente o contrário, e talvez seja esse o maior nó do atual governo. Esta tarefa não vem tendo o devido tratamento. Falta ao interlocutor oficial as condições básicas de um bom negociador, o conhecimento e discernimento dos problemas decorrentes do relacionamento dos agentes político, além do que nunca ouviu falar de Nash e sua teoria.

Mas nada acontece ao acaso nessa seara. A negação desse papel ao Vice Governador seria parte de um processo para enfraquecer a sua influencia junto ao governo. Dele e de outras figuras do front, já citadas no artigo anterior, que conflitam com os interesses do novo grupo que se organiza e se move no subsolo, as tais forças ocultas que nos referimos.

Há muita contrariedade no seio das forças políticas que deram sustentação ao novo governo. Entre os aliados de sempre esse grupo age sem a devida legitimidade por contrariarem acordos e compromissos e se formarem à margem das instancias partidárias. Tudo faz sentido. Como candidato natural a sucessão de Waldez Góes, o Doutor Pedro Paulo é um obstáculo a eliminar, assim como Sebastião Rocha e Gervásio Oliveira, já citados anteriormente e outras figuras do partido resistentes ao processo.

A estratégia em curso é abrir caminho ao deputado Lucas Barreto, com o agreement de 17 outros colegas , considerados “ da base de sustentação do governo” na Assembléia Legislativa. A intenção é colocá-lo, de forma privilegiada, como nome de preferência dessa nova força, à sucessão de Waldez Góes. Por isso, como já disse, é necessário o controle do PDT, hoje na mão desse grupo que construiu o caminho da vitória, políticos a maioria no primeiro escalão da administração, em quem se centra o fogo das baterias do Deputado e sua tropa de choque.

A indicação de qualquer nome à disputa da Prefeitura de Macapá e de outros grandes municípios, cite-se Santana e Laranjal do Jarí, passa necessariamente pelo partido. Esta é a batalha que se trava no momento. Depois é garantir a indicação na convenção para ter o apoio da poderosa máquina governamental a facilitar a vitória, considerada previsível. Um passo fundamental para quem busca posição estratégica e privilegiada na disputa futura do governo do Estado, não se pode negar.

Mas essa é uma missão difícil se não se tem o partido na mão. Por ser indispensável ao alcance do objetivo, explica a razão dessa briga medonha que já extrapolou os limites do PDT e do governo, que além dos seus graves problemas, tem mais esse pra lidar. É briga de cachorro grande, como diria minha sábia mãe, daí ser previdente manter-se a devida distância. E tudo isso é porque o governo mal começou.