O PDT e a sucessão de João Henrique.

O jovem David Alcolumbre, deputado federal pelo PDT, é realmente um fenômeno. Com a impaciência própria da idade e de quem tem pressa em tudo que faz, trabalha obstinadamente sua candidatura a Prefeitura de Macapá, como se não houvesse amanhã, como fala em sua canção o poeta Renato Russo, que bem entende dos arroubos da juventude.

Ocorre que não se almeja tamanho salto sem incomodar. Mas o jovem pedetista, obviamente, não traduz apenas um desejo pessoal. Há mais gente nesta empreitada. Para os que não sabem, ou fingem não saber, existe um forte aparato a lhe dar sustentação. Nada desprezível, cujo braço mais visível e forte é o senador Sarney, com a anuência do presidente da AL , pedetista como ele , e termina em setores da base do PDT cujos interesses não foram satisfeitos ainda no atual governo.

O que tem a ver Sarney com o PDT, já que pertence ao PMDB ? Alguém poderia perguntar com inteira razão. O que outrem poderiam responder, igualmente cheio de razões: o que isto importa a Sarney se ele reina sobre tudo e sobre todos? Se os políticos o miram com aquele olhar e humildade dos escravos diante do seu buana, como diria Élson Martins, não importando a que partido pertençam?

Gervasio Oliveira seu colega de partido, titular da poderosa SEINF é, sem dúvida, o candidato da preferência do Setentrião, ao que se fala por aí. E a sua desenvoltura nesse alvorecer de governo não deixa dúvida. E tem cacife pra isso. Pertence ao grupo íntimo do poder, tem amigos e aliados forte dentro e fora do governo, no partido e só não será o candidato ao lugar de João Henrique se o mundo vir abaixo.

Bem dotado politicamente, Gervásio já sentiu o perigo e tratou de colocar sua tropa em campo. E promete jogar duro. O jovem David, ao que se sabe, está até disposto a disputar a indicação dentro do PDT, confiança que tem na sua máquina pessoal. Mas se a marola for muito forte e a lei eleitoral permitir, na hora certa pode recorrer ao PMDB, com o aval do “chefe”, que o deixará de portas abertas. Aí os preteridos, e não serão poucos, como diria o velho Lobo, vão ter que engolir.

Este e apenas um dos muitos problemas que o Setentrião vai ter que lidar daqui pra frente. Há menos de um ano e meio das eleições municipais, importantes na estratégia de manutenção de poder, vai exigir muita argúcia na condução do processo e na administração dos vários interesses em jogo, por isso vai ser um jogo nada fácil de jogar. A maré mansa vai acabar e o mar vai estar agitado nas hostes governistas.O barulho ainda é pouco, mas vai ficar maior.

E flagrante a diferença de estilo entre Waldez Góes e João Capiberibe, no trato destas questões. Enquanto o segundo procurava manter um controle rigoroso do processo não deixando qualquer dúvida sobre a indicação do nome de sua preferência, seguindo o modelo padrão das grandes lideranças políticas brasileiras, também chamadas de “caciques”, o seu sucessor parece adotar uma postura mais distante da disputa, alheamento que sugere um estimulo as disputas internas, vitais em qualquer partido.

A política, sabemos todos é um moto contínuo. Principalmente depois que ela virou meio de vida e profissão de muita gente, leia-se os políticos. Nem bem se encerra um ciclo eleitoral, logo começa o outro. O espaço que separa dois eventos não passa de mera abstração. Daí não haver nenhum exagero se afirmarmos que a disputa para as prefeituras, as maiores e menores, há muito começou, e quem imagina que isto tem hora e momento marcado pra começar, pode estar perdendo um precioso tempo.

O jogo já está sendo jogado, não só no PDT que assiste o duelo Gervásio e David, mas em vários partidos, inclusive no PT que finalmente recebeu João Henrique. Aí só o tempo dirá o que está reservado ao atual prefeito. Pela tradição, petista não digere prato feito. No PMDB a boa votação de Gilvan Borges ao senado o credenciaria como candidato da sigla, mas aí, novamente, tem Papaleo Paes. A menos que não queira. Imaginamos que queira, afinal esta foi uma das razões alegadas para deixar o PTB. Sem falar de Jurandil Juarez, cada vez mais sem espaço e sem futuro, pelo menos no PMDB.

E por aí vai. Benedito Dias no PP, Ildegardo Alencar no PPS, Janete Capiberibe no PSB, Evandro Milhomem no PV, Fátima Pelaes no PSDB, uma lista que não pára de crescer e vai mais longe ainda, podem esperar. Nomes que, entre outras coisas, servem para que avaliemos o que esperar do futuro.