Saudade morna, espírito errante


Uma sexta-feira dessas resolvi dar umas pernadas por aí. Assim, de repente, e só porque o finalzinho de tarde estava tão bonito, claro, céu azulão apinhado de flocos de algodão enormes, bem branquinhos, que não resisti. Celular desligado para ninguém atrapalhar aquelas horinhas de folga, óculos escuros a olhar o sol bem de frente e as ruas do centro da cidade inteirinhas para o meu deleite.

Nessas caminhadas invariavelmente bate umas saudades... Foi assim que passei pela esquina da Escola Integrada, na avenida FAB com a rua Tiradentes. Aquele muro alto protege e guarda uma parte preciosa da minha adolescência, quando a escola ainda se chamava Ginásio de Macapá. No GM passei quatro anos, conheci mestres maravilhosos, consolidei amizades que até hoje me confortam e dancei as melhores quadrilhas da minha vida.

Viva São João, São Pedro e Santo Antônio, que se não fossem eles a gente não teria o mês mais animado do ano, mais colorido, rico em tradições e alegria. Espoca foguete no coração da gente que a emoção é grande “sumano”. Ficar de fora da quadrilha do professor Noventa nem pensar. E não tinha esse negócio de traje uniformizado e um monte de músicas estranhas que algumas quadrilhas adotam hoje. Era o forró e todos os seus parentes, xote, maxixe, xaxado, embolada.

E lá pelas tantas a atração máxima da escola, orgulho dos pais, professores e alunos, o campeoníssimo Grupo Folclórico do GM. A vida da professora Onédia Paes Bentes toda ali, dedicada a resgatar as tradições da cultura popular, ensinando os meninos da banda Oscar Santos a tocar Caixa de Marabaixo, e a gente a dançar de tudo um pouco, ampliando as cabecinhas dos alunos para tradições de outros estados, de norte a sul, com a dança da mulher rendeira, o Siriá, os ritmos afro do Candomblé, o Carimbó e o nosso Marabaixo.

Lembro dela batendo firme, a energia vem da terra, do chão de barro batido. Essa energia vem com a música e se expressa na dança, e a gente ali, ouvindo tudo com atenção, absorvendo cada palavra pra depois explodir nas coreografias, nas roupas típicas, no bailado que nos ausentava do mundo por longos momentos de êxtase.

A Semana da Pátria era esperada com tamanha ansiedade, que os professores precisavam ficar atentos para que o aprendizado não fosse negligenciado. Final de agosto, início de setembro as cabecinhas só pensavam no desfile do dia treze, aniversário do Território. A gente se mudava para a escola. Entrava e saía turno e estávamos lá, ensaiando, costurando, colando chapéus, assistindo aos ensaios secretos do pelotão do professor Noventa. Ele dava show na avenida FAB, com os meninos pra lá e pra cá sem errar um passinho sequer. A cidade sabia e esperava.

Vivíamos a escola, respirávamos suas aspirações e nos confundíamos com os livros, as mesas e cadeiras de seu patrimônio. E por falar em patrimônio, lembrei que devo uma visita à dona Noca, inspetora de disciplina daqueles tempos e de hoje. Ela se recusa a pedir aposentadoria, não suportaria ficar sem os gritos da meninada pelos corredores, a agitação da escola, a hora da campainha no intervalo e tudo aquilo que move a vida de um educador.

Dona Noca é um capítulo à parte na história do GM. Festejávamos seu aniversário todos os anos com toda algazarra merecida. Afinal, se não fosse sua ajudinha nos momentos mais difíceis, nossas idas à diretoria teriam sido mais numerosas. Ela sempre dava um jeitinho, mudava um pouquinho os fatos para que nossas aprontações parecessem menos graves. Deixava a gente entrar mesmo atrasados em dia de prova, sem que o diretor visse. Essa coisa de afeto que não se pode esquecer, o coração traz de volta de vez em quando.

Recordações, saudades, olhar espichado para o muro que agora é alto demais, talvez para impedir que as lembranças fujam. A professora Onédia escolheu o mês de fevereiro para embarcar numa canoa encantada rumo à “Terra sem Males”. Essa semana fiquei sabendo que o professor Noventa seguiu viajem para se encontrar com a velha amiga. Dona Noca ficou, não consegue escapar daquele muro alto. Vou visitá-la e tentar recompor minhas lembranças, aplacar essa saudade morna, reencontrar meu espírito por hora errante a seguir sem rumo pelas calçadas incertas da rua Tiradentes.

Márcia Corrêa
12.08.04