Saudades de Deus

Deus deve ter um colo quente, forte. Terá as mãos firmes, apaziguadoras. Um olhar terno e absolutamente cúmplice. Será ele caloroso no abraço, silencioso na espera, generoso na partida. Tenho saudades de Deus. Dos tempos em que habitava sua forma, átomo entre zilhões de outros, mas, único entre as vestes dele no infinito.

Durante tempos incontáveis vivi sob as asas de seu amor. Lá, no cerne da felicidade. Onde não há diferenças que não se completem; olhares que não se compreendam; sentidos que não compartilhem. Era uma centelha de sua luz cálida, que mesmo diante dos olhos abertos não ofusca, aquece.

Habitávamos um lugar onde a solidão era um bálsamo para a prece. Estar só era estar com Deus, plenos de quietude. Bastava seu olhar inexplicável - as línguas e as letras não são capazes de significa-lo - para nos sentirmos em casa, seguros, amparados. Deus é um grande cobertor na eterna noite de frio da existência.

Quisera eu poder hibernar eternidade afora, volteando seus longos cabelos sedosos. Abster-me voluntariosamente de abalançar-me nessa aventura terrena, onde o único elo com a casa paterna é a contemplação do ábaco de estrelas no céu. Existir em carne e osso é um fardo pesado, com breves alentos para a alma, e olhe que freqüentemente me sinto uma abantesma.

Estar aqui é o avesso do que reza minha saudade. É o oposto dos campos do senhor. É o contrário da morna mão firme daquele que me criou, me ninou em suas luas, me orientou por seus sóis e, sabe-se lá porque, em algum momento, me vestiu de badulaques, para que não me perdesse no caminho, e mandou que seguisse rumo aquele ponto azul no final dos rastros dos cometas.

Como se larga um filho assim? Quem disse que Deus não se engana? Achava ele que eu estava pronta para viver em um lugar hostil e dissimulado. Um lugar encantador, mas, que habitado por almas tortas, cruéis, enturvadas pela ambição e pela intolerância. E eu nem pude olhar para trás.

São trinta e seis anos na conta cristã, que procuro entender esse abandono. Rebusco nas gavetas da memória o momento certo em que pousei na atmosfera desse planeta, para ter a certeza de que não fora um ledo engano de meu pai. Algo no epicentro desse turbilhão de sentimentos será capaz de esclarecer, elucidar meu dilema.

Então estarei num entrudo, vestida de colombina, experimentando sentimentos lúdicos, de vida, alegria, felicidade, plenitude, religação. Será o reatar de meu cordão umbilical com o cosmos, a compreensão macro do estar viva.

E dos caminhos que percorri nesses trinta e seis anos, em alguns encontrei as sementes de girassol que larguei pelo caminho, marcando a volta. Em outros, só vi curvar sinuosas, estradas embrenhadas entre desfiladeiros, trilhas fechadas pelo mato cortante. Nada além. Nenhum caminho seguro, mas, os primeiros, devo admitir, reconfortantes.

Falo daqueles que trilhei com amor, experimentando esse sentimento amplo, criativo, fosforescente. Amor em pencas, fluindo em enxurradas, descendo as montanhas da convivência com outros seres como eu, desprendidos das asas de Deus. Amor leme da vida, que usurpa a letargia e eleva-nos a capacidade de exercer a solidariedade. Amor levante contra os leviatãs da intolerância, do ódio, da desonestidade.

Então meu coração se transformou em leira. Justo ele, que nunca foi nababo, mas que andava padecendo de desesperança. Hoje, escreve quintilhas, sentado à sombra do cedro, no quintal apinhado de folhas secas amaciando o chão. Do alto de sua contemplação, me manda um recado: é só assim, vestida de amor, calçada na solidariedade e adornada pela determinação em auxiliar o pai a aprumar esse mundo, que vais estar pronta para enxergar o caminho de volta.

Márcia Corrêa
31.10.03