Senzalas: a volta sempre por cima

Nesta sexta-feira (04) o grupo Senzalas, composto atualmente por Amadeu Cavalcante, Val Milhomem e Joãozinho Gomes - Zé Miguel faz falta, mas continua solo, inicia temporada no palco do restaurante Soho, localizado na esquina da av. Pedro Baião com a rua Manoel Eudóxio Pereira. Não será um show qualquer. O Senzalas é a síntese da evolução dos ritmos e tradições folclóricas do Amapá. A ponte mais sólida entre o velho e o novo som; uma simbiose dançante, exuberante e envolvente de cultura e tradição com inovação e criatividade. Quem já viu sabe do que estou falando.

Até o ano passado o grupo Senzalas, que ganhou esse nome a partir da gravação de um CD com os quatro componentes originais, batia o ponto religiosamente no Centro de Cultura Negra, bairro do Laguinho, arrastando um público fiel, numeroso e consciente da importância daqueles músicos, daqueles compositores e daquelas canções. Afinal, canções são como as varandas de uma rede; sem elas a rede balança, mas não se encontra com o vento bailando com a mesma graça. As quintas-feiras foram interrompidas por falta de apoio.

Todo povo tem um enredo, sua história, seus mil jeitos de responder aos estímulos da vida. Todo povo tem suas canções e elas embalam os nascimentos, os crescimentos, o trabalho, o aprendizado, os amores, os sonhos, as utopias, as desventuras, o esquecimento. Elas nascem ao redor da gente, crescem com a gente e se tornam partes da nossa alma coletiva. As canções nos fazem ver quem realmente somos.

Os meninos do Senzalas, hoje na casa dos charmosos quarenta, carregam no peito corações-tambores, batucando as dores de nossos antepassados, seu arrastar de correntes nas noites escuras da escravidão, sua luz de esperança nos dias de liberdade que ainda virão. Trafegam pelas ruas de nossas euforias, encontros nas esquinas, namoros nos bancos das praças, memória inocente daqueles que acendem as velas para a novena do santo, enquanto chacoalham as saias rodadas, floridas, borboletas encantadas.

Esses artistas estão só na metade do caminho. E esse caminho começa e termina aqui mesmo, no Amapá, na Amazônia. Por mais que a Europa os veja, o Rio de Janeiro os aplauda, São Paulo os receba com louvores, aqui está o povo capaz de compreender e amar sua música. Aqui está a codificação de suas buscas poéticas. Entre nós está a pólvora e o fogo - lembrando Patrícia Bastos, capaz de reabastecê-los com a mesma freqüência com que o rio sobe e desce todos os dias em direção ao oceano.

E para que esse tesouro cultural não seja prejudicado pela patética limitação da cena política, é bom que fique claro que o Senzalas, assim como todos os artistas que fazem de sua arte o caminho de sua própria vida, estão acima das periódicas marés da política. Devem ser tratados com o respeito de quem traduz a ancestralidade de seu povo, de quem tem a capacidade de motivar nossa amapalidade, revitalizar nossa florestania.

Portanto, sexta-feira é dia de reencontrarmos a alegria do Senzalas. Dia de celebrarmos a nós mesmos, comemorarmos nosso mundão verde-folha, nossos infinitos igarapés, nossa gente morena e fustigada pela lida, mas cheia de solidariedade, nossa beleza afro-índia, nossa mistura colorida e nosso desejo de sermos mais um povo a olhar para o mundo na mesma direção da linha do Equador, com o horizonte a deixar claro que não há nada melhor abaixo ou acima de nós, apenas diferente.

Márcia Corrêa
03.07.03