Socorro, tia Alice! Estão bregando o carnaval


Desde o último show de Xangai em Macapá, que não ocupou metade do Teatro das Bacabeiras, ando cismada com o imperialismo brega. No mesmo dia o Cacique Cara de Pau, aquela figura estranhíssima que canta mal pra caramba, fazia uma apresentação na Aerc lotada de fãs, vejam só, do tal cara de pau. Pensei, pensei e lamentei a injusta ausência de público no sempre agradável show de Xangai, mas levei em conta a força do brega que nasceu aqui por essas bandas do Norte e faz parte da cultura local.

Mas, agora já é demais, brega no carnaval é o mesmo que o Bush bombardeando o Vaticano, inconcebível. Mas, é exatamente isso o que está acontecendo. Domingo passado o trio elétrico do bloco Pererê esquentava os primeiros brincantes que chagavam para o tradicional circuito semanal tocando brega. Ficou aquela coisa esquisita, desanimada. Não que as pessoas não gostassem de brega, mas é que não tinha nada a ver com a situação. Todo mundo de bermuda, latinha na mão, camisa do bloco, bandana e fitinhas na cabeça. Sabe! Aquele jeito de quem quer sacudir os braços com os hits baianos, trocar os passos num bom samba de avenida, paquerar balançando ao som de marchinhas e aquele clima de carnaval que todo mundo conhece, e o bregão rasgando no meio do chuvisco.

Neste sábado (15) mais um episódio dessa invasão ao carnaval. O carro-som do bloco Unidos da Chechênia anunciava pelas ruas do comércio uma feijoada promocional da agremiação e, para variar, ao som de “...arrepia Dinho, vamo nessa Dinho...”. Arrepiada fiquei eu. O tempo de ouvir “... ala la ô...” e outras canções tradicionais da temporada de Momo já vai longe. A gente se contenta ao menos com “... e vai rolar a festa” e outras no ritmo da época, mas, brega não. Por favor, pelo menos nesse período, respeitem a tradição do carnaval.

Em último caso, apelo para tia Alice Gorda, a Rainha Momo, majestade da folia, que baixe um decreto, aprove uma Lei, faça um apelo, ilustre seus súditos para que não matem a alegria, a criatividade, a fantasia, para que não enterrem as marchinhas de Lamartine, Moraes e outros. Conto com Alice na terra e Sacaca no céu numa corrente para tentarmos impedir que a transformação do brega na mais insuportável arma sonora contra essa rica manifestação da cultura popular, o carnaval.

Márcia Corrêa
15/02/03