Terra de ninguém

Desculpa aí o mau jeito, mas essa terra está ao Deus dará. Assalto ao abrigo dos idosos? Assim já é demais! O sujeito passa uma vida inteira trabalhando, enfrentando todo tipo de dificuldades e quando já não tem mais forças para produzir nem família que cuide da sua velhice vai para o abrigo com outros na mesma condição que a sua para ser assaltado.

Como se não bastasse a condição lamentável em que se encontra o Abrigo São José, dependendo sempre da caridade da sociedade civil para completar o que o estado deixa de dar, agora mais essa. Há pouco mais de uma semana os idosos abrigados ali passaram pela humilhação de serem agredidos e terem seus míseros trocados roubados por um bando de ladrões.

O Amapá está à deriva. A média de assaltos à mão armada varia de seis a oito por dia. E se antes as maiores vítimas eram os menos endinheirados da periferia, hoje os cheios da grana também não escapam. Em menos de seis meses dois deputados estaduais e um ex-deputado federal deram de cara com a casa arrombada.

Os pais do deputado Kaká Barbosa (PT do B) e a irmã do deputado Ocivaldo Gato (PDT) levaram bordoadas dos assaltantes em situações diferentes. O irmão do ex-deputado Badu Picanço enfrentou barra pesadíssima e o próprio Badu levou tiros ao tentar reagir contra os assaltantes. Isso mostra que nem a base de apoio está fora de perigo.

Empresários da noite e produtores de shows estão na mira das quadrilhas. No domingo, às oito da noite, quem estava pela sede da AABB no final da estréia do concurso Musa Verão foi rendido e roubado. No bairro das Pedrinhas o dono do Comercial Batista, pequena loja de materiais de construção, acordou para ver todo seu patrimônio surrupiado.

No Jardim Marco Zero, esta semana, uma mulher chegou do supermercado às oito e meia da noite com o filho de seis anos e foi estuprada e roubada dentro de sua casa, diante da criança. Ontem (18), às três horas da tarde outra mulher foi assaltada bem no centro da cidade, ao lado da nova Catedral de São José.

Na meia noite do mesmo domingo tenebroso da AABB, os sócios da madeireira Madecamp foram amarrados e torturados junto com familiares no Distrito Industrial durante mais um assalto.
No conjunto Cabralzinho uma menina de onze anos foi violentada por vários delinqüentes.

Esse quadro rápido e assustador dá uma idéia do que estamos vivendo no Amapá hoje. Enquanto isso, três policiais anotam ocorrências e espantam moscas em delegacias de bairros da periferia durante a noite. Só três em cada, com viaturas quebradas, sem gasolina ou na garagem da casa do delegado. Os policiais viraram vigias de prédio.

Não tem dois anos de governo e o secretário de segurança já não é o mesmo do início. O novo, José Soares, está no Amapá há pouco mais de cinco anos. Ex-comandante do exército, hoje na reserva, fala em estratégia para combater o caos. Mas, até quando?

Escrevendo esse texto lembrei de um episódio banal. Dia desses estava num quiosque do bairro Santa Inês, daqueles novos construídos pela prefeitura. Eram nove horas da noite e um grupo de garotos corria de um lado para outro, gritando, jogando coisas uns nos outros. Fiquei em sobressalto. Dava a impressão que a qualquer momento um ia sacar uma faca e ferir o outro.

Aquela agonia, aquele suspense tirou a paz e riscou de medo a beleza do lugar. Não me contive e peguei um deles pelo braço, quando passava correndo ao meu lado. Vem cá, isso é briga ou brincadeira? Ele riu e disse é brincadeira. Que alívio! Naquela hora percebi como estamos todos inseguros, amedrontados. Macapá perdeu a paz, resta às autoridades se convencerem disso.

Márcia Corrêa
19.05.04