Coronel da PM dá tiro no pé

De onde terá saído tal idéia? O deputado federal amapaense Coronel Alves, eleito com apoio determinante dos militares do estado, saiu-se com essa: quer que famílias com renda acima de cinco salários mínimos paguem mensalidades para que seus filhos possam estudar em universidades públicas. Parece idéia de quem não tem filhos ou nunca teve pai ou mãe assalariados.

Pra começo de conversa, o deputado deveria ser denunciado ao SERASA. Ele quer que a gente pague a mesma conta duas vezes. Só para lembrá-lo, vamos recordar o caminho das pedras. A gente paga os impostos, esse dinheirinho de cada um vira dinheirão quando somado, segue até os cofres da União depois segue em fatias para os ministérios. Tem mais, o Ministério da Educação recebe a maior fatia do bolão, sabe para quê, deputado? Para bancar a educação pública.

Seguindo adiante na nossa breve colaboração ao debate, precisamos agora analisar o teto proposto pelo representante do povo. Cinco salários mínimos correspondem a exatamente R$ 1.200,00. A média nacional das mensalidades do ensino superior privado é de R$ 500,00 - esse é um chute por baixo. Já que o deputado propõe que a pública cobre a metade, significa que dois filhos na faculdade custarão os tais R$ 500,00, fora livros, transporte, cadernos...

No final do mês essa família ficará com R$ 700,00 para comer, vestir, comprar medicamentos, se locomover, etc. É isso ou escolher entre os filhos aquele que vai ficar fora da faculdade assistindo ao irmão se formar. É de partir o coração. Enquanto isso, os tubarões do ensino privado abocanham incentivos públicos para manter suas arapucas travestidas de universidades.
Mas, já que colocamos o dedo na ferida, vamos mergulhar fundo nas conseqüências dessa proposta. Os principais eleitores de Alves, soldados e oficiais da PM, estão todos incluídos no teto proposto por ele. Isso significa que, mesmo os soldados estreantes, com os menores salários e nenhuma estrela no ombro terão que pagar para estudar na universidade pública. Acho que o coronel deu um tiro no pé.

É possível que o deputado, no longo período de treinamento físico que deve ter passado no quartel, não jogou futebol. Caso contrário saberia a regrinha básica: gol contra é ponto para o adversário. E esse foi um golaço contra quem o elegeu. Tem político que consegue! Tanta coisa pra fazer e ele resolve ter uma idéia “brilhante” dessa.

Alves bem que poderia usar melhor seu mandato, seu trânsito entre as esferas do poder, para descobrir se o bolão do dinheiro da educação está indo direitinho para as escolas, para as universidades, ou se está se perdendo pelos escapamentos da corrupção. Esse seria um papel e tanto para seu futuro político.

Márcia Corrêa
03.03.04