A túnica de Deus

No céu de fumaça lenta e quase branca feito abóbada sobre as colinas verdinhas, um sol fosco dourava levemente o véu muito fino de nuvens amanhecidas naquela manhã chorosa. Pisquei os olhos sonolentos, encostei o queixo na janela do carro em movimento para sentir a última brisa da madrugada úmida. Foi quando meu coração se encheu de uma alegria cristalina e branda. Os raios daquele sol, em fusão com o algodão desfiado das nuvens, criava uma expansão de azul clarinho, tão clarinho e lindo que pensei ter visto a túnica de Deus.

Ainda não eram sete horas da manhã quando deixamos a casa calorosa e aconchegante de Gil e Denise na comunidade do Ariri. Um avarandado de madeira a favor do vento, deitado sobre esteios maciços e imperturbáveis. A casa quieta, por trás da desperta folhagem ao longo da margem, ficara do outro lado das águas irrequietas do Matapi.

Por cima do ombro dei mais uma olhada longa e inconformada para o movimento das águas. É isso que trago incomodando o peito sempre que volto lá. A correnteza disciplinada, a cada vez que sobe e desce o rio, carrega um amontoado de garrafas descartáveis, sacos plásticos, recipientes de óleo diesel e outros elementos estranhos àquela natureza atônita.

Percebo que o tempo tem sido dócil demais para com a crueldade ignorante dos homens. O lixo despejado impiedosamente nas águas do Matapi se avoluma e tinge com as cores sombrias da morte o futuro do rio, de todos os ecossistemas que dele dependem, do povo negro e manso que habita aqui e acolá suas margens, de minhas reconfortantes lembranças.

Enquanto o carro sacoleja meu corpo largado no banco de trás, acordando aos poucos de uma noite bem dormida no silêncio raro daquele lugar, penso em quando comecei a perceber o lixo chegando. Creio que há uns quatro anos fiz as primeiras parcerias com meu cunhado Gil para catar as garrafas que boiavam ainda aos poucos.

Com o passar do tempo envolvemos as crianças na tarefa, até que ontem à tarde a brincadeira ficou perigosa. Janaina e Joiane ajustaram os coletes para nadar em direção a uma garrafinha marrom que subia apressada a correnteza. Alcançaram o objeto invasor e começaram a gritar e fazer caretas sinalizando para a água. Levantei o olhar e vi o rastro de óleo que desenhava a mancha diante delas. As meninas saíram da água apressadas para lavar a pele com sabão e livrá-la o quanto antes do produto nocivo.

E o lixo não está só no sobe e desce do rio. Com a chegada intensiva dos novos ocupantes das margens do Matapi, o terreno atrás da sede da Associação de Moradores, onde está fincado um pequeno trapiche de tábuas irregulares para atender aos que chegam, vem sendo transformado em lixão. Para completar, a prefeitura de Macapá não faz a coleta regular dos resíduos e a paisagem sofre lenta e lamentável transformação.

As curvas do ramal de terra conduzem um bailado gostoso da porteira principal da pequena vila até a rodovia asfaltada. Tempo suficiente para que os pensamentos componham um mosaico harmonioso, um quebra-cabeça reflexivo, uma colcha de idéias. Criar uma ONG para proteger o Matapi, visitar os moradores e distribuir folhetos educativos, mover uma ação contra a prefeitura, continuar catando o lixo até não poder mais, sei lá. Vou deixar a melhor idéia ir se arrumando, encontrar guarida e depois então propor algo. O certo é que a túnica de Deus não pode ser manchada com a sujeira desastrada dos homens.

Márcia Corrêa
27.01.05