Uma lição para a história

O julgamento do processo que acusa o deputado federal Antonio Nogueira de crime eleitoral foi adiado. Na manhã de ontem (15), quando muita gente ligava o radinho para acompanhar o evento marcado pelo Tribunal Regional Eleitoral, veio a notícia: o desembargador Honildo Amaral de Melo Castro passou mal e cancelou o momento decisivo para a carreira política do deputado.

Nogueira é do PT e a possível cassação de seu mandato, com a acusação principal de ter facilitado a emissão de carteiras de habilitação para eleitores, através do Detran, seria a primeira dessa natureza envolvendo um deputado federal petista, levando-se em conta ainda o momento político mais importante da vida do PT, que governa o país e tem maioria - contando com os aliados históricos, os de última hora e os fisiológicos, na Câmara Federal.

Portanto, ao contrário do que possa parecer, Nogueira não está só. Em seu socorro tem a mão pesada do poder federal, o suporte robusto do partido do presidente da República e o silêncio daqueles que podem, mas não acham conveniente para seus interesses, meter a mão nesse angu, favorecendo o julgamento do processo. Dá até para passar mal.

O problema é que no Amapá o debate político em torno da possível cassação do mandato de Nogueira está focado numa situação imediata e pouco relevante. Quem é melhor? Nogueira ou Badu Picanço? E é esse o ânimo que motiva os defensores e os acusadores nas rodas de conversa, aquelas que influenciam a opinião pública.

Então, vamos por partes. Se a questão é o desfalque na base governista no Congresso, bobagem. Badu não tem tradição de oposição e certamente irá se aliar ao bloco de sustentação do governo tão logo volte à casa. Então, vamos para outro argumento: justiça pela trajetória política de cada um. Bem, aí o buraco fica mais fundo.

Até o momento em que fazia suas campanhas eleitorais tendo como principal instrumento a palavra, o argumento, as idéias e o apoio despretensioso de amigos, militantes e familiares com panfletos singelos, carros de som montados com dificuldade, santinhos doados e toda a fé daqueles que acreditam na transformação da sociedade, Nogueira estava a anos luz de Badu Picanço, que de ideológico nunca teve nem a sombra.

O problema é que Nogueira resolveu entrar na seara, até então desconhecida por ele, da cata de votos por meios menos ingênuos. Pior, aceitou o caminho apontado por um PT que acabara de assumir o governo do estado, e que estava inebriado com a possibilidade de gerenciar um orçamento de milhares de reais, em pleno período eleitoral.

Nogueira abandonou o caminho seguro da candidatura a deputado estadual para se tornar o candidato da governadora Dalva Figueiredo a Câmara Federal, com toda a parafernália da máquina pública a seu favor. Foi aí, nesse momento, que ele deixou de ser o vereador determinado, o político de trajetória séria e segura com futuro sólido, a promessa petista nos melhores moldes.

O vereador santanense de dois mandatos foi chamado, de uma hora para a outra, a escolher entre permanecer no caminho político tradicional de seu partido, buscando voto a voto no argumento e planejando sua carreira política dando um passo de cada vez, e a possibilidade de dar um salto gigantesco, da acanhada Câmara de Vereadores de Santana, uma pequena construção de madeira onde mal cabem seus vereadores e onde as decisões políticas são amiúde e entediantes, para o glamour do Congresso Nacional e a chance ser parte das mudanças prometidas pelo PT historicamente.

Certamente, não foi uma decisão fácil. Mas, Nogueira optou pelo salto, e quem sou eu para dizer que foi além das pernas? O fato é que, mesmo que o deputado seja julgado inocente, a pecha de distribuidor de carteiras de motorista está lançada sobre sua história, e isso já é suficientemente ruim para quem começou bem, na solidez da busca ética pelo sonho de mudar o mundo.

Quanto à cassação, se ocorrer, uma lição terá sido registrada na história política do Amapá e do PT, e esse deve ser o foco do debate. Vale a pena usurpar a construção histórica de um partido, cujo discurso ético sempre foi seu principal diferencial, em nome do poder a qualquer custo, em nome de dar um vôo mais alto e mais rápido?

Talvez a dura lição, mesmo que dificilmente digerida a curto prazo, principalmente por quem está diretamente envolvido em suas conseqüências, seja fundamental para que o PT acorde, reflita e reconheça que não se pode construir um discurso e praticar o oposto impunemente. E que a responsabilidade de quem constrói o discurso é com a esperança de milhares de pessoas e não com suas quimeras pessoais de poder e riqueza.


Márcia Corrêa
16.12.03