Quando o veneno vem a galope

Tendo como marca editorial a discórdia, a leviandade de denúncias fantasiosas e a irresponsabilidade em plantar notinhas passionais e parciais contra seus desafetos e adversários, um dos principais jornais de Macapá sofreu um duro golpe de sua própria lavra. A capa do Diário do Amapá do dia 12 deste mês trouxe uma fotografia do governador Waldez Góes com a seguinte legenda: “Governador Waldez Góes: perigoso assaltante”.

Não se tratava de nenhum ataque ou matéria contrários ao governador, até porque o Diário é completamente alinhado, enfileirado, integrado e imiscuído às hostes comunicativas do governo. Sabe lá o que ocorreu de fato! Mas o fato ocorreu e tirou o sono da direção do jornal, que tem no governo o mais importante anunciante/patrocinador.

Justo o Diário, que dois dias antes estampava na capa, com aquele impressionante tom de arrogância de quem compartilha do poder, matéria sobre a nova orientação política do governo. Parafraseando o ex-presidente cassado Collor de Melo, anunciou que Waldez Góes deixaria a esquerda surpreendida e a direita atônita. Essa seria a tônica do governo, segundo o jornal, para o ano que inicia.

Na mesma chamada de capa o mais grave era anunciado. Segundo o jornal, o governador teria decidido sobre sua relação com a mídia insinuando que a partir deste ano quem não falasse a mesma língua do governo estaria fora das verbas oficiais. Duro golpe naquela que as democracias chamam de “liberdade de expressão”. Isso dito naquele tom pequeno de vingancinha, típico do Diário, do tipo “agora quem manda somo nós”.

O Diário infla o peito à toa, para logo em seguida meter um golaço, contra ele próprio. Tanta bajulação ao governador para se acabar numa legenda de foto, cujo conteúdo gravíssimo nenhum jornal de oposição jamais ousou chegar nem perto. Esse é o problema de quem manipula produtos perigosos e não se previne contra as possíveis contaminações.

O que teria dito o diretor do jornal para se desculpar com o governador, durante todo o dia em que deu plantão no Palácio do Setentrião? Uma possível troca de legenda, erro até corriqueiro nas redações? Impossível! Sabem por que? Dando uma olhadinha na página policial da mesma edição, checamos que não há nenhuma foto de assaltante, que justificasse tal troca. Há um cidadão acusado de tráfico de drogas. Se a legenda da foto do governador tivesse a palavra traficante, até daria para aceitar essa desculpa.

Então, que raio de maluquice deu na redação do Diário? Talvez uma brincadeirinha de mau gosto, daquelas que se faz na intenção de apagar depois, antes do jornal ir para a gráfica. Se foi isso, no mínimo alguém na redação do Diário pensa coisas pesadas a respeito do governador. E aí entra em cena um outro vilão, a falta de cuidado na finalização que, aliás, cometeu outra gafe na mesma edição. Em matéria sobre a conselheira Raquel Capiberibe, do Tribunal de Contas, tascou uma fotografia da deputada Janete Capiberibe.

Essa falta de cuidado também é comum em publicações com poucos recursos, daquelas que mal pagam o editor e o fotógrafo, mais um jornalista do tipo faz tudo. Mas, em um jornal que se pretende um dos mais importantes do estado, e que navega confortavelmente nas verbas públicas destinadas pelo mesmo governador chamado de “perigoso assaltante”, é no mínimo inexplicável.

Não adianta demitir editor. É preciso compreender que esse jornalismo de oito ou oitenta, que bajula ou denigre, conforme seus intere$$e$ está no limite de sua existência. A sociedade não acredita mais e os governantes precisam compreender que aliados assim dispensam adversários. Ter uma relação respeitosa com a imprensa é o melhor caminho.

Por outro lado, fica a lição para os próprios jornalistas. O caminho do jornalismo de ocasião, de troca de favores, de promiscuidade com o poder, de bajulação ou de ataques gratuitos tem data e hora para acabar. E se acaba assim, dessa forma feia, deselegante. Quando um jornal está mais preocupado com os valores que recebe do que com a qualidade do serviço que oferece, esquece de fiscalizar até as legendas das fotos.

Márcia Corrêa
13.02.04