“A vida é uma música...”

Manhã de sábado. Linda manhã de maio. É tempo de incerteza para o próprio tempo. Ele vive a doce dúvida de não saber se deixa a chuva encharcar a cidade num interminável concerto de notas tilintantes, ou lhe pede uma trégua encantado com o brilho do sol, que preguiçoso quer acordar antes de julho.

O asfalto úmido reluz em fosco brilho de manganês. E a cidade se agita, luminosa, colorida, festejante. É cedo ainda, mas a rua está repleta de gente. Crianças, jovens em bandos, lindas negras no corredor do Laguinho, atravessando, rebolando displicentes, vendedores de mingau buzinando seus carrinhos, passa pra lá ô do churrasquinho, deixa eu passar com meu olhar de retirante da noite, acordando pra encarar a vida de peito aberto, passarinho batendo asa chamando o verão.

E vamos lá que a vida não espera, ela é faixa verde e amarela acenando para o futuro que não é nada e é tudo de bom quando se acredita nele. Atravesso a faixa esburacada de morim da cidade, na direção norte até a ponte nova do Canal do Jandiá. Tem pouco tempo que inauguraram, mas, “disque” já está rachada sumano. E passo lá com fé em Deus e uma figuinha que ninguém é de ferro.

Do outro lado... aí sim é que tem movimento. A cidade do lado de lá é um formigueiro. Valei-me meu São Lázaro que é tanto cachorro perambulando em tuas ruas. Comércio estabelecido na saída do canal, passa-passa de gente, carro, caminhão, bicicleta, moto, carroça, se duvidar pousa um zepelin soltando balões de gás em homenagem às cores de maio.

Vou já explicar como encontrei esse título aí de cima.

No coração do bairro do Infraero repousa a Casa de Amor, pequeno centro espírita, que se agita aos sábados com mãos cortando legumes para a sopa, recebendo crianças, senhoras, trabalhadores, grávidas de esperança, e as meninas Geissy Kelly e Ádlla.

Elas e mais dez crianças pulam da cama antes das oito e aceleram o passo para participar das atividades da casa. No sábado elas tinham uma notícia triste. E, como toda criança, se apressavam para contá-la com detalhes. Um amiguinho do bairro, Adriano, cometera suicídio. Tinha quinze anos.

Foi então que resolvi falar de vida por aqui, com as palavras das meninas, que escreveram sobre o amigo, numa folha branca de papel A4: “Você nasceu para ser um homem de eterna sobrevivência”, expressou Ádlla. “A vida é uma música que nunca deveria ter fim...”, escreveu Geissy Kelly.

E não tem, caríssima, não tem.

Márcia Corrêa
Em 25.05.04