Vitória de quem suou a camisa


Bárbara é uma jovem de 21 anos, de família numerosa, aquela que dá nome à Vila dos Oliveira, no bairro das Pedrinhas. Desde pequena acompanha o empenho da mãe, empregada doméstica, para criar e educar sozinha oito filhos, dos quais sete mulheres. Até a data de hoje, apenas a mais velha das filhas, Kátia, conseguira o sonho de dez entre dez mães; um diploma universitário. Mas, neste final de janeiro de muitas chuvas, Bárbara coroou seu esforço de longas noites insones, de horas esquecidas sobre livros e cadernos nos últimos dois anos; ouviu seu nome na lista dos aprovados no vestibular da Universidade Federal do Amapá.

A vitória de Bárbara se deve a uma determinação incomum na sua geração. Estudou em escolas públicas, enfrentou dificuldades financeiras, superou distâncias em longas caminhadas a pé até os locais de estudo, economizou centavos, abriu mão de festas e se empregou como babá para pagar o cursinho. A jovem acordava e dormia cedo para cumprir o ritual de trabalho e estudo com afinco.

No Brasil, as universidades públicas estão repletas de histórias como as de Bárbara. Passar pelo funil econômico e social, que elimina gerações e gerações de jovens brasileiros do ensino superior, está cada vez mais difícil. No Amapá, a proliferação de faculdades particulares, longe de significar uma ampliação de possibilidades, estreita ainda mais a boca do funil. O preço das mensalidades assusta e as famílias de baixa renda nem ousam inscrever seus filhos, afinal, a sobrevivência é prioridade.

Mais uma bandeira de esperança para o governo Lula. Até dezembro do ano passado, o cerrar das cortinas de Fernando Henrique Cardoso contava uma história de abandono, sucateamento e facilitação do processo de privatização das universidades públicas. Um cenário desesperador para a maioria da população, que vê no diploma do filho ou da filha a única chance de que ele ou ela viva melhor do que os pais, tenha mais oportunidades, ajude a manter a família e sobreviva com dignidade.

O entusiasmo do Ministro da Educação, Cristóvam Buarque, em seu discurso de posse, convocando o Brasil a fazer da educação uma mania nacional nos enche de esperança. Mas, disse o ministro também que a juventude precisa se mobilizar, se organizar, exigir permanentemente do governo que o diploma universitário seja valorizado, que as oportunidades de ingresso sejam ampliadas e que a superação do analfabetismo seja compromisso de cada brasileiro.

O Brasil quer, está disposto e tem demonstrado compreender que chegou a hora dos pobres, dos menos favorecidos, dos grandes contingentes populacionais que precisam ter garantido o direito à educação, ao ensino superior, não como o exemplo de uma história de exceção, mas como o caminho natural de quem sonha com uma profissão e com a oportunidade de mostrar que é capaz de chegar ao topo. Parabéns à Bárbara e a todos os jovens aprovados no vestibular.

Márcia Corrêa
28.01.03