Uma desilusão, um velho paletó...

João Silva

Havia em Macapá, há muitos anos atrás, um velhinho, seus setenta anos, baixa estatura, gordinho e afável que vivia palmilhando a cidade dentro do único e indefectível paletó branco que lhe restara dos tempos em que fora gente graúda no serviço público, e que por ser único e branco, lavado, enxugado muitas vezes, foi se desgastando, se enchendo de manchas, de rasgos com o passar do tempo, algo que parecia não incomodar antigo coletor de tributos que por algum motivo resolvera “morar” na rua.

O velho Ademar era figura mais que carimbada das nossas trilhas urbanas, pessoa conhecida dos mais antigos, dos jovens e até mesmo da garotada do Grupo Escolar Barão do Rio Branco...Todos o viam apressado como se fosse a um compromisso inadiável. A molecada, nenhum engraçadinho, ninguém se atrevia a uma brincadeira de mau gosto, tal a elegância e respeito que impunha aquele homem trajando paletó branco, sem demonstrar sinal de tristeza, de sofrimento atroz por onde fosse levando sua solidão intrigante...Por que, então, o velho Ademar resolvera palmilhar a cidade sem descanso?

Eu mesmo, já menino taludo, queria saber o que acontecera, o que teria levado aquele homem educado, afinal de contas, a viver perambulando pelas ruas de Macapá, motivo pelo qual minha curiosidade vivia ligada na conversa dos mais velhos. E eles - não esqueço, se reportavam a um noivado desfeito, a uma profunda desilusão amorosa. Pelo que pude entender, o velhinho de terno branco, na juventude, fora vítima de uma paixão não correspondida...Talvez uma estudante linda que não podia casar ainda, só depois de se formar.

Tamanho desencanto abriu uma grande ferida de amor no peito do velho Ademar, aliás dolorosa ferida que foi crescendo e sangrando sob o velho paletó. Tudo verdade: o caso do velhinho andarilho foi mesmo mal de amor, fruto de uma paixão recolhida e não correspondida por aquela que seria a mulher da sua vida, que também terminou a dela sozinha... Morreu solteira, provavelmente virgem, aqui mesmo em Macapá, com um detalhe: virou nome de escola porque foi a primeira alfabetizadora do lugar e legendária professora do magistério amapaense.

Então sozinho, sem família e sem amor, velhinho enigmático fez o seguinte: decidiu camuflar a sua dor, manter a forma dos bons tempos e visitar na hora certa tradicionais famílias de Macapá, que ele conhecia tão bem.. Ai fez do paletó e da gravata uma religião, sem se descuidar das meias, dos sapatos, estes quase sempre bem engraxados, apesar de velhos. Certo mesmo é que aquele velhinho doce, passando por aperto, não era triste nem perdera a pose diante das dificuldades e da solidão.

Lembro que a nossa casa, ali na praça Veiga Cabral, estava na rota do Ademar, não escapava das “visitas” do bom velhinho de paletó branco...Ele sabia que o papai gostava de reunir a prole para o almoço e o jantar, ao todo oito filhos e mais a mulher, uma escadinha! O velho Duca ocupava a cabeceira de grande mesa e nenhuma refeição saia antes que assumisse seu lugar; era servido primeiro e só depois então todos poderiam se servir, inclusive mamãe. Sempre tivemos o que comer, graças a deus, embora alternando fartura com períodos de vacas magras. De qualquer forma, a nossa mesa vivia sortida. E era o que atraia o velho Ademar pra nossa casa justo nas doze badaladas do meio dia...

Chegava, invariavelmente trajando paletó branco, quase sempre com as mãos cruzadas bem no pé da barriga, olhando sorridente aquela família e a sua mesa farta. Passinhos estudados, educadamente se aproximava de todos para fazer a saudação de sempre - na verdade uma senha para que o chefe da casa ouvisse e determinasse uma vaga pra ele no repasto dos Picanço e Silva...Alegremente o velho Ademar dizia:
-Estão mexendo com a boca, hein!
A quê o senhor Duca Serra, homem de bom coração, mais que captando a mensagem, respondia:
-Antonica, minha velha, faz um prato pro Ademar...


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