27-5-10

Amigos, amigos; eleições à parte...
Ademir Pedrosa - De prosa, de rima.

O sujeito resolveu fazer uma caçada.
- Vai caçar o quê? - perguntou o amigo.
- Onça - respondeu o sujeito.
- Acho perigoso. Onça é bicho arisco, muito traiçoeiro...
- Mas vou prevenido, bem armado - ponderou o sujeito.
- Ainda assim é arriscado. Vai que a arma falhe na hora h?
- Bom, nesse caso eu uso a outra arma...
- E se a outra também negar fogo?
- Eu corro, ora essa...
- E se a onça correr atrás de ti?
- Eu subo numa árvore.
- E se a onça subir também na árvore?
- Eu... Espera! Escuta aqui, tu és meu amigo ou amigo da onça?...

Assim nasceu o amigo-da-onça, que está sempre do lado oposto para criar dificuldades. A revista O Cruzeiro, leitor - que é bem mais antiga do que é da sua conta -, trazia sempre em sua última página uma historinha dessa figura lendária, que retrata a relação capciosa entre amigos.

A expressão “do tempo do ronca”, é a mesma que “do tempo do Onça”, com maiúscula que era a alcunha de um antigo governado do Rio de Janeiro (1725), chamado Luís Vahia Monteiro, sujeito temperamental e conflitante, deram-lhe o cognome por motivos óbvios, e que hoje significa velhos tempos, tempos idos.

A jornalista Alcinéa, aqui e ali está sempre desafiando o leitor para identificar coisas do passado. Uma vitrola, um rádio a válvula, um pingüim de geladeira, ou uma foto em preto e branco dos primórdios de sua infância. Uma atividade lúdica de Juracy Park, bem mais arredada do que nos tempos da brilhantina.

E agora ela traz à baila a figura do amigo-da-onça, do mesmo período em que a jornalista desfilava como baliza na Avenida FAB, na Semana da Pátria. Baliza também tem cheiro de naftalina, é ou não é? Pois é, antiguidade é posto, e a Alcinéa está autorizada a relembrar de coisas do tempo do Onça.

O Professor Munhoz, disse-me certa vez que de quando em quando recorre à memória da Alcinéa para lembrar-se de coisas que lhe escapam da lembrança exígua. Coisas que a cortina do passado lhe arrefeceram da memória.

Outro dia o Prof. Munhoz quis lembrar-se do nome de batismo do saudoso 91. A Alcinéa entregou de bate-pronto: Expedito da Cunha Ferro. Mas assim também é fácil, disseram-me que ela fora colega do 91 no GM - Ginásio de Macapá.

Prof. Munhoz costumava fantasiar-se de Pierrô para brincar, nas antigas batalhas de confetes, o carnaval. Havia uma marchinha de carnaval que o Pierrô gostava de cantar - Bafo da Onça -, mas esquecera a letra. Ligou para Alcinéa. Sua âncora de memória não só lhe deu a letra na íntegra como cantarolou um trecho da marchinha: “Nessa onda que vou/Olha onda Iaiá/É o Bafo da Onça/Que acabou de chegar”.

Do outro lado da linha, o antigo carnavalesco não pôde conter a saudade, e premeu os olhos de emoção. Havia muito que não sentia algo semelhante. A Alcinéa conseguiu arrancar do velho Pierrô uma lágrima de ternura...

Qual era mesmo o assunto? Ah, o amigo-da-onça... Personagem caricata, com ar enigmático e taciturno sempre à espreita, disposto aprontar alguma. Curioso é que todos têm um amigo-da-onça; e ninguém se considera como tal, quando a verdade eventualmente pode ser recíproca. Quem garante que “você” não é suspeito de ser o amigo-da-onça?

A Alcinéa, por exemplo, nutre simpatia velada pelo PSB. E aqui e ali faz declarações de fogo-amigo, uma saia-justa capaz de ruborizar os mais autênticos socialistas. A união do PSB e PT é vista por ela com desconfiança. E acha que em política eleitoral até jabuti sobe em açaizeiro. É bem capaz.

O PSB reatar a união com o PT eu acho perfeitamente plausível. Ambos têm seus DNA parecidos, é sangue bom. Agora, o que me parece verdadeiramente bizarro é José Sarney e Lucas Barreto darem apoio a Dilma Rousself; e, paradoxalmente, a Dalvinha do PT andar de chamego com os Herodes da vida.

A candidata do Lula à presidência não é tida como subversiva? Há panfletagem por aí que diz que ela é ex-assaltante de Banco, seqüestradora, terrorista e outras cositas mas. Naquele período da ditadura militar, Dilma conspirava contra o regime discricionário - aplausos! Lucas e Sarney de mãos dadas com uma subversiva? Eu já vi até enterro de anão...

A ficha do SNI sobre Dilma só fez crescer em mim a simpatia que sinto por ela. Meu candidato era o Ciro Gomes do PSB, e como sou fidedigno ao partido, sigo sua diretriz, e agora Dilma Rousself é minha candidata desde pequenininho, especialmente porque eu adoro votar em subversivos.

Pois é, o amigo-da-onça... Amigos assim é que nem cu, todo o mundo tem um. Cada um defende encarniçadamente o seu. Se o problema é de hermenêutica, convém não titubear: cada um cuida do seu. Sed Lex, dura Lex...

O amigo-da-onça caiu de moda. Diante da canalhice reinante, ficou démodé. Teríamos que fundar uma associação, tipo: Associação dos Amigos do Amigo-da-onça, cuja sigla é AAA (não confundir com os alcoólicos anônimos), que nem KKK, AMCAP, UECSA, associações afins, de mui amigo. E para coroar a trairagem, um soneto de Augusto dos Anjos, Versos Íntimos:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!