ADEUS, BABÁ!

João Silva

Ali no “Senadinho”, no nosso encontro diário de bate-papo, no Largo da Matriz, desde de l6 setembro, há uma cadeira vazia, uma lacuna, uma ausência sentida...Falta uma prosa que se desfez como pétalas ao vento, falta um amigo que partiu de repente e, para sempre, suponho, pensando nas incertezas que estão por trás do negro e pesado portal da morte...Dói muito, mas eu quero dizer que o Babá morreu.

À noite, sob céu estrelado, na praça, o simbolismo daquela cadeira vazia parece reclamar, querer falar, perguntar a um de nós: - “E aí, minha gente, o Babá não vem?”. Não, o Babá não virá mais, parece responder a voz da nossa dor coletiva ainda perplexa...Pois é, justo quem nunca faltara, agora não virá mais, nunca mais...

E agora que desencarnou, vou dizer uma coisa que precisa ser dita: o Balufa, que também era Babá e Dodô para os mais íntimos - na verdade se chamava Aldony Fonseca Araújo-, não era anjo coisa nenhuma, não virou estrela com a sua morte, mas também não era o demônio que adversários gratuitos, que falsos amigos inventaram, por mera questão pessoal ou vingança política; foi vítima da luta pelo poder, dos burocratas hipócritas, e da maldade humana, nada comparável ao prazer das farras homéricas que povoaram nossas vidas “no tempo em que a zona de Macapá tinha seu valor”, como diz o poeta Enildo “Cuia Preta”.

Nos últimos anos da sua vida, o Babá despojado de qualquer vaidade assumiu de vez o lugar do rapaz polêmico e rebelde de outrora, dos tempos do “Balufa”, jornalzinho informativo que circulava no Colégio Amapaense na década de 60, quando os grêmios literários eram redutos da mocidade intelectual, cheia de sonhos e a política estudantil fazia sentido, porque produzia massa crítica, forjava líderes para “abastecer” o emergente Território do Amapá; se transformou, portanto, num Babá prosaico, sem ambições, que nada tinha a ver com o Babá de outras jornadas, como o Babá perseguido pelo regime militar porque era ativista do PC do B e queria fazer uma revolução armada para construir um País melhor, mais justo e mais solidário...

O Babá que “assinava ponto” na esquina da São José com a gen. Gurjão, chegava cedo, seis, sete horas da noite - bermuda, camiseta, sandália havaiana; ia logo pedindo, na lanchonete do Bossas, bem ao lado, dois sanduíches adubados e uma coca litro, pra variar. Depois disso, aí, sim, como ele mesmo gostava de dizer, estava forrado para o que desse e viesse, se referindo, em tom jocoso, aos confrontos acalorados com o professor e historiador Nilson Montoril, nada, aliás, que não pudesse ser contornado pelos cabelos brancos do meu amigo Lindoval Peres.

Aos que me perguntam, porque querem saber mais, não canso de dizer: como boa parte de nós, amigos de infância, o Babá teve berço, estudou no Barão do Rio Branco, fez o ginásio, fez o clássico no legendário Colégio Amapaense e ralou muito para colocar a mão no seu canudo de papel; errou e acertou muitas vezes na vida, amou, foi amado, constituiu família, foi honesto e útil a terra em que nasceu. O exemplo colheu dos próprios pais, Zequita e Jacira (falecidos) que tiveram cinco filhos e, mesmo com dificuldade, formaram todos: dois médicos, uma dentista, um agrônomo e um economista. Ainda estão entre nós, José Fonseca de Araújo (médico) e Isis (dentista), que residem em Belém e estão inconsoláveis diante da perda do irmão e amigo de todas as horas.

Caso sirva de consolo aos irmãos, aos amigos, para todos que o amavam, pesaroso, mas nem tanto, lembro de uma das últimas conversas que tive com o Babá, quando me dizia, naquele clássico tom moderado dos últimos anos, lá no Senadinho: - Olha aqui, Balala, se é verdade que os mortos se encontram, a morte não pode ser tão ruim assim, porque a saudade que fica, com a separação dos que se querem bem, dos que se amam, pode ser compensada com a alegria do reencontro com àqueles que amamos e nos esperam do lado de lá”. Ai fico imaginando uma coisa: a festança que houve no céu com a chegada do Babá, abraçando o Heraldo, o Martinho, tirando um sarro com o Bigode e o Alberto Alcolumbre, beijando as tias, tomando a bênção do velho Zequita e da dona Jacira, todo mundo passado de saudade...