CONTO DO AVISO FUNEBRE!

João Silva

Incrível, camarada, mas aconteceu! Nada que me incomodasse tanto, sem deixar de incomodar, como diria prosaica Tia Miquelina, lá de Pedra Branca, noventa e tantos carnavais, tagarelando sabedoria no bate-papo com os velhinhos na fila do Inss. Aconteceu, sim, mas com um amigo de infância, que até bem pouco tempo gostava de se gabar do seu nome diferente, admita-se: Hillo, assim mesmo com dois eles...Hillo Francisco Campos de Moraes, nome de senador, de príncipe, de ministro!

Motivo de tudo foi Macapá consternada ao ouvir a notícia da morte do dito cuja, ou seja, muitos amigos telefonando uns para os outros, naturalmente lamentando o triste fim de um grande guerreiro, assim que a divulgação do infausto do Hillo pipocou no programa do J.Ney, ainda de madrugada.

Rádio ligado, olhos abertos, dei um salto da cama, sentido, triste, entre Pai-Nosso e uma Ave-Maria...Então, logo o Hillo, meu amigo Hillo, viajara pra Caiena? E viajara levando para o túmulo as histórias dos primeiros bordéis deste lugar, parte da crônica policial e outros assuntos que dominava por força do seu ofício de escrivão nas delegacias de Macapá, tempo em que a polícia só servia pra prender ladrão de galinha e apartar briga de vizinho!

Moleque nascido e criado na ilharga do rio Amazonas, próximo a praça Veiga Cabral, justiça se faça, um tremendo fala mansa. E sempre apertando as mãos pálidas, como se rezasse ou fosse necessário para impressionar seu interlocutor. Falar esfregando a mãos, uma dentro da outra, parece marca registrada dos filhos do Zito Moraes. O Rubem Moraes, o jornalista Euclides Moraes, todos que conheci falam assim, com aquela cerimônia toda.

O Hillo, na minha juventude, foi uma figura e tanto...Circulava nas noites das décadas de 60 e 70 com uma turma de boêmios que fazia ponto nos lugares mais badalados da cidade, para quem não faltava bebida e boa companhia. O pai foi líder do PTB, Prefeito de Macapá, e na política inimigo visceral dos Nunes.

O velho Zito Moraes, aliás, ficou marcado pelo episódio que determinou sua queda da PMM, em meio a histórica disputa entre o PTB e o PSD. Quem fez a bandalheira foi um certo Piquerinha, chefe de gabinete, numa trama urdida pelos seus adversários...O cara simplesmente redigiu um pedido de demissão e enfiou entre a papelada que o prefeito assinava sem ler. Daí é que o tal pedido chegou às mãos do Janary, que já esperava por ele, e o aceitou imediatamente. Foi assim que o Zito Moraes entrou para o folclore da política no Amapá, nada, entretanto, que desmereça sua figura carismática, sua luta na oposição aos Nunes.

Mas, afinal, o homem morreu ou não morreu? Pior é que não morreu, e explico depois, esperando que o meu amigo, a essa hora lendo estes escritos, não me leve a mal. Certo é que tudo começou com um mau caráter que “matou” o Hillo sem dó nem piedade, informando de Belém, onde estava a tratamento, que o mesmo batera as botas depois de um peripaco, quando na verdade estava vivinho da Silva. Pegos de surpresa, os parentes caíram no conto do aviso fúnebre pago pela família, em ligação à cobrar para o telefone da vítima. É muita sacanagem.

Precisava ver o Euclides me contando sobre a tremedeira nas pernas enquanto ouvia o “morto” ao telefone dizendo que não morrera, que estava vivo, curado, feliz, de volta à Macapá, ao Laguinho, onde mora com o irmão que lhe deu guarida desde quando a veneranda Tia Dica foi pro andar de cima, já que o Hillo é solteiro convicto.

Pior é que não morreu tem a ver com as despesas, com a compra do paletó de madeira, com as providências adotadas para publicar nota na imprensa, trasladar o corpo do Hillo de Belém, fazer o velório e sepultá-lo em Macapá! Além disso, todos que o amam já haviam chorado e sofrido tudo que poderiam chorar e sofrer. Portanto tinha ficado difícil desfazer tudo que já estava feito; sobretudo explicar a cada um dos muitos amigos do Hillo que a notícia da sua morte fora um rebate falso, uma grande sacanagem, que o homem estava vivo e gozando saúde!

Claro, os parentes comemoraram, os amigos manifestaram sua alegria pelo morto que reviveu, mas a verdade é que sobrou pra alguém, até porque o Hillo, alguns anos mais velho que este escriba, ficou econômico: fala pouco, sai pouco de casa, freqüenta poucos amigos e me disse que detesta dar explicações. Então sobrou mesmo para o Euclides, sangue do seu sangue, condenado - para o resto da vida, creio - aonde quer que vá e encontre com o pessoal da velha guarda, a ter que explicar, a quem quiser ouvir, a incrível, mas chatérrima história do morto que reviveu!