CIDADE EMPAREDADA

João Silva

No rádio nosso de todos os dias, não faz muito tempo, ouvia-se a chiadeira geral e irrestrita provocada por um seleto grupo de comentaristas do nosso quotidiano...Vozes de todos os timbres, agudas ou não, impostadas ou não, moderadas nem tanto; invariavelmente dissonantes e bem orquestradas, todo santo dia, as mesmas vozes se levantavam, no cantar do galo, para reclamar da cidade emparedada, ou daquilo que chamavam de “maior cerca do planeta”, sobre o que não se ouviu falar mais nada, de uns tempos pra cá.

Nem por isso. A cidade segue emparedada, ou melhor, um pouquinho mais emparedada que antes, se levada em conta o que herdou de Capiberibe e Dalva Figueiredo, numa comparação ao que foi acrescentado de lá pra cá, já que Waldez Goés, com a justificativa de fazer reparos cuja demora irrita a população, restabeleceu a grande cerca do entorno da Fortaleza, posta embaixo pelos petistas para promover uma festa eleitoreira; como se ainda fosse pouco, João Henrique entrou na onda da cidade sitiada e acrescentou à paisagem urbana mais algumas centenas de metros de tela e outros tantos de madeira de primeira, transformando pontos nobres da cidade em labirintos, esconderijo para a delinqüência, para os cheiradores de cola e a marginalia em geral...O que menos se ver é homem trabalhando.

A chiadeira a que me refiro, tinha lá seus motivos, segundo os críticos de plantão. Os mais contundentes questionavam as grandes cercas, o desperdício, a irresponsabilidade com o dinheiro público, dirigindo ao governo de então o grosso da crítica; queriam saber quem estava sendo beneficiado por quem e porque se gastava o dinheiro do povo com madeira de boa qualidade, material caro que poderia, segundo eles, servir para construir milhares de casas populares, no que tinham razão, até. Aliás, é justo que se reconheça: foram essas críticas diárias que chamaram a atenção do poder público para a necessidade dos reparos no muro do complexo do Araxá, retirando dali o cercado que afugentava os turistas, descabelava os donos de restaurantes e prejudicava a vista do Amazonas, como se não bastassem dois problemas que se agravam a cada dia que passa: o assoriamento de rio ao longo da orla e o crescimento dos aturiás.

Um lugar bom de se viver se faz com uma imprensa livre, pontual e não eventual, que exerça seu direito à crítica sem olhar a quem e atravesse os governos sem negociar o papel que lhe cabe na construção de uma cidade limpa, bonita e civilizada. Como reclamar é preciso, faço eu às vezes das vozes que silenciaram; reclamo da minha cidade emparedada, desfigurada, tomada por obras de qualidade duvidosa, que se arrastam, morosas e sem pressa nenhuma...Seria por falta de recursos ou de atenção das autoridades? Ou simplesmente foram deixadas de lado como restos de uma transição que não interessa porque lembra o governo anterior? Claro que não pode nem deve ser assim. O governador Waldez e a PMM, do Prefeito João Henrique, estão intimados a desemparedarem a ex-Estância das Bacabas, a mandarem acelerar os trabalhos que executam na Beira-Rio, por exemplo, que ainda reclama um projeto paisagístico melhor e mais audacioso.

Parece que não, mas é preocupante o quadro das obras inacabadas, com seu aspecto de abandono; com ele saltam aos olhos as dúvidas, as incertezas que também inquietam os moradores da Avenida Equatorial e a este modesto escriba, macapaense de carteirinha e tudo mais, que, apreensivo, acompanha a lenta agonia do que seria um belo projeto, inicialmente estipulado em quatro milhões de reais, mas que pode ir para o espaço por causa da precária execução da infra-estrutura, até hoje não concluída pela empresa responsável. Semana passada, a Secretaria de Transporte não levou a pavimentação da Avenida pelo menos até a ponte das Pedrinhas, porque a firma responsável não havia concluído o serviço de terraplenagem, deixou as bocas de lobo abertas, fez só a metade do meio-fio e não terminou o calçadão em pedra portuguesa. Também ainda resiste a questão relativa a indenização de algumas famílias que precisam recuar seus barracos, sem o que podem provocar um aleijão inaceitável no projeto original, comprometendo a estética dessa obra importante para o turismo, para o trânsito e o embelezamento de Macapá.
Sem o cumprimento do contrato, a cidade fica prejudicada, a população frustrada, já que a obra perde em qualidade, perde em acabamento, o que vem deixando os moradores do Jardim Marco Zero indignados (e com toda razão!), pensando em obstruir a referida artéria, com mais dificuldades à vista. Eles estão cansados de tanta espera, não agüentam mais os prejuízos, a morosidade, o descaso e querem gerar um fato capaz de chamar a atenção das autoridades.
No caso da Avenida Equatorial ainda é preciso se dizer que o povo quer bem mais do que vem sendo feito: convoca a presença efetiva do novo governo na pessoa do secretário de infra-estrutura, e também cobra a fiscalização necessária, numa atitude de respeito mais do que devido aos munícipes macapaenses. As duas partes não podem negligenciar quanto à aplicação do dinheiro público nem isso redundar na construção de obras que não valem o que pagamos por elas. A sociedade não agüenta mais a omissão das autoridades diante desses abusos, repudia os maus empresários e as empresas irresponsáveis, que faturam alto e recebem em dia para erguer e implantar obras que logo, logo precisarão ser reconstruídas. Assim não dá...