Macapá Cidade Jóia


Na Macapá de minha infância, os locutores de rádio, anunciavam as horas, dizendo assim: " em Macapá , Cidade Jóia da Amazônia, são pontualmente 3 horas." As parlendas e trovinhas criadas e disseminadas oralmente , eram muito presentes no cotidiano, sobretudo em época de campanhas políticas: "Fui no mercado, comprar Acari, fui votar no Cabo Alfredo, votei no Janary."

Pode até ser que o autor seja outro, mas até que me provem ao contrário, sempre vou achar que foi meu pai, o Ferro, que criou essa trovinha:

"Macapá cidade morena , que a nós todos seduz, de dia falta água, de noite falta luz!".

Nascida em 4 de fevereiro de 1758, Macapá é aquariana. Dizem os astrólogos que, se fosse uma mulher, Macapá seria "a morena que a nós todos seduz" pela inteligência para o novo, o improviso e o incomum. E o incomum está tão presente em tantas coisas e pessoas de Macapá , que eu estou quase a acreditar em astrologia.


A Macapá de minha infância e adolescência é o bairro do Trem. Todo o meu universo cabia ali entre as ruas que levavam da rua 1o. de Maio a Feliciano Coelho . A casa onde eu nasci, um dia depois do seu 202o. aniversário, depois virou estabelecimento, a Casa Sacramento. E era assim por todo o bairro a poesia no nome dos comércios: Casa Sol , Casa Lua.

Macapá de minhas comilanças, é o açai do Elesbão, pães e donzelas da Casa Costa, passeios à Fortaleza comendo manga e goiaba. As pipocas do "Camarão-Frito", o raspa-raspa, o cascalheiro , e o pirulito puxa-puxa, parecendo guarda-chuva , enfiado em um tabuleiro. Os vendedores de frutas e de camarão passavam à porta, com enormes paneiros em carrinho-de-mão.

Macapá de minha infância, de crendices e medos: Rasga-mortalha, Velho do Saco , e Dona Antônia (Crioulinha), a negra umbandista , que nos fazia tremer de medo, quando dizia : deixe estar, Matinta Pereira há de te pegar!.


Macapá de minha infância é também a Macapá de minhas saudades. Do Grupo Escolar e do Cine Paroquial Pe. Dário, do Ginásio Feminino e a irmã Elvira Buyatti. Saudades de picolé de tapioca, de pescaria no Arraial de São José. De circo ou de comício na Praça de N. Sra. da Conceição. De desfile de treze de Setembro. De "batalhas de confete" dos velhos carnavais , do Urca ao Barrigudo. De banho de praia na Vacaria, Saudade até do que não vivi: ensaio dos Piratas da Batucada e de ouvir grito de gol no Glicério Marques.

Macapá de minhas lembranças, do vendedor de bugigangas, carrinho, boneca, maracá , que passava a gritar: é o marreteiro! Dos pioneiros do bairro do TREM. O Sr. Redig , o Irineu, Sérvulo (o delegado), Seu Tota, os irmãos Arraia, Raul Vieira , o turco Chafick, a Maroquita, e a turma da Vila Operária: tio Bené, dona Maroca , os Gurjão e o Biroba , transmitindo Solteiros x Casados, na praça da Conceição.

Macapá é meu lamento, por lá não estar, para participar da festa da Associação de Amigos da Av. Acelino de Leão , no bairro do TREM. Não é só cachaça não, os moradores promovem uma festa cultural, com varal de poesias, concursos e gincanas , que incentivam as crianças a pesquisar sobre a história da cidades. Escolha de Garoto e Garota Cidade de Macapá, cada um representando um bairro da cidade.

Ai reside o incomum de Macapá, numa capital, numa avenida que é rota de ônibus , os moradores ainda atam rede sob as árvores frondosas. Dona Miguela na esquina, d. Beatriz e Seu Ferro no meio e dona Rosa noutra ponta da rua , são pioneiros, ainda brincam e promovem as relações de vizinhança.

Em Macapá, cidade jóia da Amazônia são pontualmente horas de comemorar o aniversário de Macapá. Eu cresci achando que Macapá era mesmo uma jóia e muito preciosa. Parabéns Macapá pelo teu aniversário, querida cidade do meu nascimento , da minha infância e adolescência e que há de ser o meu porto de retorno do exílio: "...não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá".


Vânia Beatriz - amapaense exilada em Rondônia.