COGNOMES DA MINHA INFÂNCIA
(Confira, você pode estar por ai)

João Silva

É quase possível dizer-se que um moleque (pelo menos um), no tempo da Casa dos Padres, fosse conhecido apenas pelo nome recebido na chamada pia batismal; quase ninguém podia viver sem um apelido, por mais ingênuo que fosse. Falando dos moleques que conheci, praticamente todos atendiam por um cognome, que ia sendo sacramentado, quase sempre, ao longo da nossa convivência no futebol, nas festinhas de aniversário, no banho de rio, na escola, nos passeios, nas brincadeiras...

Alguns moleques traziam apelidos de casa, geralmente coisa carinhosa, tipo prenome abreviado pela mãe, pelo pai, pelos irmãos...Assim, quem era Raimundo virava Dico, Francisco, Chiquinho, Benedito virava Biló. Mas até onde alcança minha lembrança, maioria dos moleques ganhava apelido na rua mesmo, dados por amigos a título de gozação, para lembrar uma magreza excessiva, uma orelha grande, uns quilos a mais, algum bicho, alguma anormalidade física, jeito de ser, ou apenas para “homenagear” alguém, alguma coisa que estivesse na moda, fazendo sucesso.

Posso enumerar vários casos em que moleques da Casa dos Padres eram conhecidos até por mais de dois apelidos. Meu amigo Aldony Fonseca, que nos deixou um dia desses, era Balufa, Babá e Dodô; este escriba, por exemplo, devido sua magreza na infância, bem próxima do raquitismo, baixa estatura, quase um corpúsculo, tinha vários apelidos...Até parece que estou vendo o inesquecível Raimundo Nonato, nosso “Bigode” - apelido que o acompanhou pela vida toda, fazendo aquela saudação que marcou nossa amizade: - “Fala Caixa Velha! Canguela! Balalão!”.

Não é bom esquecer o caso dos moleques que ganharam apelidos obcenos, que nem sempre a gente podia falar perto de uma beata curiosa, de um cidadão mais velho, próximo de alguém de respeito que quisesse saber do que se tratava...Como explicar, por exemplo, por que os apelidos de “Três Pernas” e “Piroquinha”, com os quais a rapaziada carimbara para sempre duas grandes figuras do nosso de tempo de Casa dos Padres? Ah, recordo também do “Sobrecu” e de um outro moleque do Igarapé das Mulheres que fazia incursão pelo centro, conhecido como “De Rã”, que não era francês coisa nenhuma, como poderia parecer...Foi o jeitinho inventado para não chamá-lo em público pelo seu apelido inteiro, que na verdade era Cu de Rã; nessa faixa ainda havia um moleque com apelido mais obceno ainda, o C.B.M, este realmente impublicável.

Alcunha para todos os gostos é o que não faltava...Havia casos até de dois Caboquinhos, dois Metralhas, dois Pelés (um branco e um preto), dois Chiquinhos e dois Zazãos. Confira a lista, que é melhor: Bereco, Cabeça Podre, Serrote, Cuia Preta, Changai, Bunda de Saúva, Panam, Carcará, Lambe, Prego, Cabeludo, Tio Lema, Capeta, Catolé, Braço Podre, Feijoada, Jangito, Rato, Tachachada, Cutia, Careca, Fofão, Lindoca, Cazé, Célio Baixinho, Metralha 1, Metralha 2 , Pitoca, Bigode, Pão de Vinte, Brim Coringa, Zezão, Lamável, Balufa, Babá, Dodô, Negão, Bichão, Galinha Voadora, Bembeta, Pidó, Violão, Picolé, Macaco, Doca, Cadico, Lelé, Minhoca, Sassuca, Savino, Caboclo do Penalty, Bibiô, Fantasma, Gogô, Beiçola, Rock Lane, Bacurau, Pé de Ferro, Pé Grande, Paloca, Calango, Tuico, Candé, Satiro, Babão do Duca, Dedê, Mapinguary, Buiá, Gurijuba, Zé Macapá, Bené do Melo, Jó, Noquinha, Sabão, Cabecinha de Ouro, Curupira, Michico, Caboquinho, Garoto do Rio, Piapau, Nena Leão, Pedro do Barca, Chuvisco, Palitinho, La Roquito, Zé Buchinha, Pelé Branco, Zeca Preto, Zeca Pelé, Zezé do Moeda, Duca, Cocada, Piloto, Pretinho, Lulu, Fanha-Fanha, Chiquinho, Caboqueiro, Bebé, Mucuim, Bacana, Banana Preta, De Arroz, Chop, Curupira, Perci, Sabará, Puruca, Zapata, Salazar, Titio, Pagé, Diabo Louro, Marapanim, Humberto Pacussú, Tioponga, Caé, Zeca Diabo, Cara Azeda, Bunda de Xerife, Cabeça, Billypão, Babaia, Cabeça de Alho, Baé, Piléu, Langanho, Zé Rico, Português, Catalina, Pororoca, Manga, Lachinha, Pedro Sabe Tudo, Pantaleão e Guisado.

Apelido, verdade se diga, às vezes dava um problema danado. Tinha mãe que não gostava, pai brabo que vinha tirar satisfação, moleque- metido-a- besta que não topava bem a brincadeira. E reagir não era uma boa...O certo mesmo era o cara relaxar, fingir que não estava ligando pra coisa, porque do contrário, aí é que o apelido pegava mesmo. Por causa disso, presenciei discussões que acabaram virando luta corporal em plena via pública...Quem de nós, moleque da Casa dos Padres, não se lembra do transtorno que dava chamar um amigo nosso pelo apelido de “Espirro” ? Era pau puro, briga na certa; fosse alguém chamar o Expedito Cunha Ferro (91) de Cabeça de Macaco?...Se não fosse bom de carreira, certamente voltaria pra casa com a cara cheia de alegria.

Ai é que fico imaginando quantas histórias engraçadas, quantas preciosidades se escondem por trás dos cognomes da minha infância! Nem por acaso, um moleque, por algum tempo, virou “Toni Tornado” com o sucesso da Br-3 e a sua semelhança física com o intérprete da música, hoje ator da Rêde Globo. Por aqui, há 40, 45 anos atrás, ainda era possível se vê o Rock Lane do cinema e da revista em quadrinhos circulando por ai; se bem que um Rock Lane cover, sem cavalo, sem revolver, mas que andava de camisa quadriculada por debaixo da jaqueta preta, de botinha de salto com esporas improvisadas e tudo mais; e aquela figura que se auto-promovia com o apelido de “Canhão da Vila”, metido a craque, que, pasmem, cobrou um penalty pra lateral? Isso me faz pensar sobre um certo machão que fizera o papel da própria, numa peça encenada sob a direção de Humberto Santos, mas que detestava ser chamado de “Dona Baratinha”, caso nem tanto parecido com o do meu amigo Luis Pereira, que ganhou o apelido de “Brim Coringa”, porque resolveu dá uma esnobada nos amigos, justo no dia da estréia da sua calça nova, tipo faroeste, de fibra sintética, novidade que acabara de chegar à Macapá.

Para usar uma linguagem do internauta que estimo e respeito, que gosto de ver alegre e bem humorado, vou buscar lá no fundo do baú, com ajuda da minha memória gasta, mas nem tanto, os “nicknames”, os apelidos mais populares, os mais badalados, mas também os mais medonhos, os mais esquisitos, os mais esdrúxulos da minha infância vivida livre na praça da Matriz...Dito isso, então se segura porque lá vai: Vaca Podre, Louro Escroto, Testa de Bode, Dente-de-Cão, Cara de Piçarra, Caboclo do Lasca, Cachorro Doído, Porco-Carneiro, Piroquinha, Pão de Vinte, Canguela, Galinha Cega, Galinha Voadora, Maçaranduba, Fusqueta, Acari Bicudo, Cachorro Magro, Quemeche, Cão Pelado, Bacurau, Três Pernas e Tio Pau...