COLOSSO INVISÍVEL

João Silva

Faz parte da minha rotina: quando vou às ruas, gosto de pegar no pulso da cidade, observar o que acontece nas praças, ao longo das Avenidas e dos logradouros públicos da nossa Capital; gosto de conversar com as pessoas, de criticar as mazelas, mas também me disponho a discutir saídas, soluções para os problemas do lugar em que vivemos, que poderia ser menos violento, mais limpo, mais arborizado e desenvolvido.

Dai é que, numa bela manhã, final de semana, sandálias havaianas, bermudas, saio de casa com a idéia fixa: pegar um pastel e um caldo de cana bem gelado na Pastelaria do Goiano. Aproveito, então, para um olhar sobre antiga paixão, ali pertinho, quando percebo uma coisa: a fachada do Colégio Amapaense está prejudicada por duas ou três árvores que cresceram barbaridade...

Imagine que mesmo a poucos metros dali, é quase impossível avistar-se o “Colosso Cinzento” por trás daquele paredão de galhos, troncos e folhas que se ergue diante dos nossos olhos. E aí, será que agora o João está contra o verde? - diria aquele chato de galocha. Nada disso, amigão, o verde é necessário.Ocorre que são árvores velhas que precisam ser sacrificadas para desentulhar o visual pra lá de comprometido.

Não, não, o nosso desleixo não pode suprimir da paisagem e do quotidiano dos macapaenses uma das glorias da educação no Amapá, embora quase ninguém tenha sensibilidade para tal ou esteja ligando pra isso, muito menos a famigerada autoridade competente (cara difícil, hein!). Até parece que por aqui virou moda o descaso com a história, com a cidade, com a coisa pública. Vide o abandono a que está relegado o monumento em homenagem a Barão do Rio Branco, em frente à sede dos Correios!

Mas insisto e, cá com os meus botões, fico imaginando que nada custa adotar uma providência.Ou se põe embaixo a arborização prejudicada, substituindo-a por outra que embeleze sem estourar o passeio público, ofereça sombra e não esconda o motivo do nosso orgulho, ou então acionemos as instituições que, por dever de ofício, deveriam cuidar das velhas árvores, podando-as, de forma que o prédio do Colégio Amapaense reapareça imponente, como nos bons tempos.

Apelidado de “Garapa Azeda” pela turma do G.M, o Colégio Amapaense da minha juventude lembra mestres inesquecíveis, como Lauro Chaves, Raimundo Lobo, José Benevides, Antônio Munhoz, Mário Quirino, mas lembra também a figura explosiva do gen. Ivanhoé Martins e o seu indefectível binóculo preto, com o qual vigiava o movimento naquele estabelecimento de ensino, a partir do seu posto de observação, o Palácio do Governo, logo ali adiante.

Com o velho general de plantão, qualquer descuido poderia ser fatal - e um ato de vandalismo praticado por estudante certamente não passaria em branco, sem que o Ivanhoé - via telefone- berrasse um esculacho no pé do ouvido do Diretor, exigindo punição para o aluno infrator e mais responsabilidade com a coisa pública. Se fosse hoje, o general linha dura não teria como levar adiante sua patrulha cívica.

Para encerrar, este cronista, tucuju desde de pequenininho, ex-aluno do colégio padrão, quer dizer ao distinto público que detesta pecar por omissão. Sendo assim, faz a sua parte, requerendo “a quem de direito” (outra figurinha difícil), a adotar as providências necessárias para “devolver” (e já!) à cidade, à praça e ao povo o majestoso prédio do Colégio Amapaense, encoberto pelo verde da nossa negligência!

Ou será que pedir isso é pedir muito?