COZINHANDO O GALO

João Silva


Na semana posterior ao dia do professor vou ao coração do Trem e faço uma visita de surpresa ao mestre Raimundo Pantoja Lobo, ou simplesmente “Professor Lobo”, de várias gerações de estudantes do Colégio Amapaense. Fui abraçá-lo mesmo com um pouco de atraso e aproveitei pra deixar umas coisinhas pra ele “olhar”.

O encontro foi esfuziante. Pra começar aquele cafezinho com biscoitos caseiros trazidos por uma secretária deslumbrante, daquelas morenas cor de jambo, “importada”, quem sabe, de algum lugarejo da região do Aporema - não sem aprovo da patroa do Lobo, claro. Morena bonita, novinha, vaidosa, exibindo mesmo sonho de consumo e arma de sedução das mocinhas da cidade: um celular no bolso de trás do short sumário. Sem dúvida, uma bela mulher que animaria a noite de qualquer coroa largado na vida.

Além do “colírio” de graça, pra limpar a vista, afinal o que eu devo mais ao meu mestre preferido? Em particular, se escrevo mais ou menos, ou se tenho um público que aprecia o que escrevo, claro que em boa parte sou grato ao Professor Lobo que não influenciou só a mim com sua vasta cultura; encantou muita gente, inclusive o poeta Isnard Lima, descansando no andar de cima, que o proclamou “primeiro filósofo do Amapá”. Mais que justo, o fez com toda a razão: é um privilégio conversar com esse caboclo iluminado, filho dos rios, dos igarapés e das matas do Aporema. Por isso, sempre que posso, venho beber nessa fonte de sabedoria. O Lobo é uma expressão viva da cultura do Amapá, filosofando de manhã, de tarde, de noite, onde quer que vá ou esteja, sempre disposto a descobrir, acumular e transmitir conhecimentos.

Tendo passado dos 70 carnavais, o entusiasmo do grande mestre pela vida é o mesmo dos melhores anos do Colégio Amapaense, seu apego ao estudo do idioma não diminuiu, não diminuiu a sede do querer saber mais, sempre mais, “porque besta é quem pensa que já sabe tudo”, como ele costuma dizer. Gosto de ouvi-lo filosofando sobre os bichos, sobre a natureza, sobre o homem, sobre a vaidade humana; tanta cultura não lhe faz mais vaidoso, mas que vai ganhando, finalmente, o reconhecimento que merece, numa terra em que poucos acendem vela pra santo de casa; está ensinando gramática na Escola da Magistratura e, aos sábados, tira dúvida dos ouvintes no programa do radialista Edinho Duarte, mais sempre que pode deixa tudo de lado e volta ao lugar em que nasceu pra embrear-se nas matas, caçar, pescar e observar os bichos no seu habitat natural. Ali se encontra com ele mesmo, com a natureza e a infância feliz.

Professor como não se faz mais hoje em dia, enorme competência, era diferente até no jeito de conferir a presença dos seus alunos...No segundo ano ginasial, Masataka Onuka, brasileiro, filho de japoneses que vieram para o Brasil, depois da segunda guerra mundial, sofria na hora da chamada; justo no seu nome o Professor Lobo, sempre em alto e bom som - quase soletrando, transformava a chamada numa pergunta marota, tipo: MASATAKA OU MAIS ATACA? Claro, sem saber o motivo da graça, o Masataka morria de vergonha enquanto o resto da turma caia na gargalhada.Fiquei sabendo que o Professor Lobo, toda vez que chegava ao Colégio Amapaense, à boca da noite, via o Masataka dando uns amassas na namorada em frente ao Ginásio “Paulo Conrado”.

Mas mestre manda! O Professor Lobo aproveita nosso encontro e apela ao jornalista e ex-aluno! Quer que me empenhe junto a Prefeitura de Macapá para que imprima cartilha dirigida aos retirantes do Maranhão, aos interioranos do próprio Amapá e do Estado do Pará que migram para Macapá; que aqui chegando com hábitos dos lugares em que viviam, acham que podem fazer chiqueiro pegado à sala de visita do vizinho, fazer caieira no fundo do quintal, colocar lavadora de carro na calçada, jogar lixo em qualquer lugar, esfolar o som do rádio na altura que quiser, ou fazer uma privada dando para a cozinha da casa ao lado.

Um mal vizinho é dose, já que fiscalização pra coibir abusos que provoca é quase inexistente, funciona mal quando funciona. A idéia da cartilha nasceu de um problema que o Lobo sofreu na carne, mas que acontece com qualquer um. E conta como enfrentou um caboclo recém-chegado à cidade, que veio fixar residência ao lado da casa em que mora e resolveu “instalar” um galinheiro bem debaixo da janela do seu quarto. Era um inferno a cantoria dos galos na madruga passada em claro. Pensou em registrar queixa, talvez chamar o Batalhão do Meio-Ambiente, os bombeiros, alguma coisa perecida, mas pensou na burocracia e mais: será que atenderiam o chamado ou teriam competência pra mediar uma a solução rápida e eficiente? Desistiu...

Pensou em enfrentar o caboclo, dizer-lhe uns desaforos, mas também desistiu. Resolveu então fazer amizade com o vizinho e prosaico homem de meia idade. Passou a bater papo com ele sobre a vida no interior, quis saber se gostava de uma sopa de galo, que ele próprio adorava de lamber o beiço, até chegar ao ponto decisivo da conversa e perguntar-lhe se não venderia um dos galos que trouxera do interior; o homem, que parecia gostar de dinheiro, topou na hora...Daí é que o Lobo, um a um, comprou os três galos que o infernizavam e mandou o galinheiro do homem pro espaço, seguido de noites bem dormidas e tudo sem briga, sem polícia, sem qualquer animosidade.

Como em sociedade tudo se sabe, depois o homem ficou sabendo do incomodo que causara e, em consideração ao novo amigo, levou o tal galinheiro pra longe da janela do quarto onde descansa um velho Lobo que já deu muito de si ao Amapá, aos amapaenses e que merece todo meu respeito e admiração.

Àh, ia esquecendo da idéia da cartilha, que não é boa, é ótima! Passo a bola a quem merece, o prefeito João Henrique, feliz, habituê das madrugadas e grande freguês de “barrela” do Mercado Central.