ENCELADUS

João Silva

Finalzinho da década de 40, princípio dos anos 50, Macapá pequenininha, necessitada de muitas coisas...Muito atraso, doenças, população rarefeita. Luz a noite só da lamparina, água encanada nem pensar. Logo de manhãzinha a rotina dos macapaenses - com seus vasilhames, incluía penosa caminhada ladeira abaixo, ladeira acima rumo aos poços do Zeca Mota e Zeca Amaral, no antigo bairro alto, em busca de água boa pra beber, usar na limpeza da casa, tomar banho e lavar roupa. A “geladeira” era um pote ou uma bilha colocada na janela mais ventilada e mais alta da casa...A nossa tinha uma janela especial que dormia aberta, dava para o lado do rio Amazonas, onde o velho Duca Serra deixava uma bilha que era só dele.

Não sei, mas parece que naquele tempo a prata da lua cheia, o brilha das estrelas no céu da cidade sem luz, o verde das árvores, a maré-cheia do rio Amazonas faziam outro sentido nas nossas vidas; tudo era mais intenso, mais próximo de nós neste lugar de São José, até a canícula do verão, só amenizada com a chegada do inverno amazônico, quando por aqui chovia aos cântaros...O aguaceiro de fevereiro, março, abril caindo generosamente ia enchendo a cidade de enxurradas ladeira abaixo, molhando tudo, encharcando a paisagem, exercendo certo fascínio sobre a gente...Chegava a chover dois, três dias seguidos e os pingos d’água na terra eram soldadinhos marchando para a guerra na visão prosaica dos meninos do meu tempo.

E os trovões, os relâmpagos diziam alguma coisa pra menino de quatro, cinco, seis anos de idade? Pelos menos os mais velhos diziam que sim, corroborando com algo que já haviam escutado dos seus avós, sem que algum moleque ousasse dizer que não. Tio Ponciano, velhinho carismático da comunidade, entre uma cuspidela e uma mastigada de tabaco, vivia dizendo que tanto barulho e luzes no céu nada mais era que Deus contrariado com as nossas iniqüidades, com a guerra e a destruição da natureza. E estimulava os mais novos a entender o que diziam os trovões: que era preciso ser cristão, solidário, obediente aos pais, estudioso e respeitar os mais velhos. Quem fosse temente a Deus e devesse consideração aos mais antigos, temia os trovões, os relâmpagos e bendizia a chuva que lavava a terra das nossas impurezas.

Guardo imagem que não esqueço: meu pai ainda jovem, porte de general, abraçado a minha mamãe e a todos os filhos em um canto seguro da nossa velha casa de taipa durante as tempestades da minha infância; lembro que no prenúncio de qualquer temporal violento, mais freqüente naquela época, parece - e lá se vão mais 50 anos, cobriam-se objetos metálicos, todos os espelhos da casa e ficávamos rezando, quietos naquele canto até que se amainasse a ira de Deus...Não mais se ouvisse os trovões, os relâmpagos se apagassem e as nuvens negras fossem embora pra longe dos céus de Macapá.

Precisava ver que não pôde...As noites chegavam fresquinhas depois de uma tempestade. Onde não se formavam grandes poças d’ água as ruas de chão batido pareciam novinhas em folha e a diversão mais simplória que olhar estrelas no céu era contar histórias nos banquinhos de madeira que toda família mantinha diante das suas casas. Claro que os mais velhos se excediam na conversa, gostavam de contar histórias de visagem para amedrontar a meninada mais tenra...O beco do Sambariri virava lugar encantado, o fogo-fátuo última chama das almas penadas e não faltava o mito da charrete puxada por cavalos brancos e o seu cavalheiro sem face, que circundava a igreja de São José nas altas horas das noites sem lua e só podia ser vista pelos mais antigos...

Não é preciso dizer que Macapá, de meio século atrás, sem desenvolvimento e os recursos da tecnologia de hoje, só podia oferecer mesmo aos seus habitantes os prazeres de um povoado perdido no meio da floresta, absorto diante do seu destino e da imensidão do rio, desafios que civilização precisou vencer para chegar até nós. Então moleque que aqui vivia tinha lá seus prazeres, sim, senhor, fantasias e medos também; ia à missa, não bebia, não fumava, dormia cedo.Dava um prazer danado bater uma bolinha de pés no chão, balar curica, tomar banho de rio ou saborear aquela manga piturisca que caia da mangueira do João Assis.

Como esquecer aqueles dias, bons tempos em que os trovões falavam, a prata da lua era mais prateada e o brilho das estrelas mais brilhante?...Ninguém sabia que o homem iria a lua, que a ciência um dia seria capaz de clonar seres vivos, ou de “plantar” um coração novo no peito de um terráqueo; ninguém podia imaginar que a internet revolucionaria nosso tempo, que o celular estava a caminho e viraria ”chula de garapa”, para lembrar meu amigo Corrêa Neto; nem tão pouco que “Enceladus” existia, que é a jóia de saturno e o corpo celeste mais brilhante do sistema solar...É isso meu chapa, o tempo voa...