ESSA MULHER...

Para Leide Vonlins, minha amiga mais querida

Essa mulher, que tanto fascínio parece exercer sobre homens e mulheres, tenta se compreender desesperadamente, tenta se amar entre fúria e desordem, busca o (esquecido) gosto doce das lembranças, a custo arrancadas da memória.

Essa mulher, que aos primeiros sorrisos parece simples e descomplicada, de fácil compreensão (e digestão), desgarra suspiros profundos da alma, se arranha por dentro como fera selvagem, sofrendo por dores que não compreende, e ansiando absoluta pelas que desconhece.

Ai, essa mulher que dói a linguagem do amor, sua necessidade premente (antídoto da loucura) e sua ausência sofrida;

Essa mulher que arde fogueiras solitárias; cujo coração compassa, absurdo, no ritmo das esporas de um cavaleiro que perdeu o sentido de caminho inevitável...

Essa mulher que deseja e tripudia os próprios desejos; que sonha e repudia ao mesmo tempo; que acredita (tanto!) e se engana, sinceramente; essa mulher que fascina e tem medo...

Não! essa mulher não é tigresa afiada, megera indomável, fera cobiçada!

Essa mulher é bicho assustado, é corpo fechado; é medo intocável!

Porque se lhe roçam a pele, os pelos se eriçam, - mas quem a libera?

Porque se lhe beijam a nuca, sussurram ao ouvido, ou tocam os seios, - o corpo estremece; mas quem reconhece? (quem a conhece?)

Quem? a se dar o trabalho de desvestir essa nudez tão criteriosamente coberta pelas ilusões (tantas) alheias; vestida, meticulosamente, palmo a palmo, pelos erros fáceis de quem se contenta em olhar sem enxergar com clareza? Pelos deslizes de quem se nega o mergulho, - porque o fundo (não) se vê, não significa que é raso; assim como nem tudo que não tem fundo significa afogamento...

Quem vê?

Quem? para a despir, de corpo e alma?

Quem? para lhe dizer: te amo, e lhe deixar acreditar, livremente, simplesmente, como se tivesse sido fácil desde o início dos tempos...

Onde? o lugar que perdeu, mas seu coração se ligou de maneira incompreensível, numa curva obscura do túnel do Tempo e das Gerações, de onde não se conhece mais nada, de onde não sobra mais nada, de onde não voltará jamais!

Quem, por Deus!, a vai despir de si, para lhe contar, um dia, que foi melhor assim?

Ah, um espelho que não a minta tanto, implora! um sorriso que não esconda tanto quanto se pensa que expõe; um olhar que não fixe tanto em sua cor, apagando o esgazeado da dor, um...

Mas para quê? se não é nela, nem agora. Para quem, se não acredita no que acredita? Porquê? se o que quer não se alcança, se o que oferece não se busca, se o que libera não se adivinha, se o que expõe não se compreende... se nega tudo!

Quem, para a despir, de corpo e alma?

Quem...

(Renivaldo Costa)