AS ESTIVAS E O SALÃO DO PALÁCIO


Quando a Lene me telefonou de Belém para dizer que havia estivas cercando o palácio Lauro Sodré, não esperei que ela terminasse a frase. Incontinente, corri para forrar a valise com algumas camisas e bandeiras estreladas, tudo em vermelho vivo, a cabeça a mil, a imaginar a cena do povo em direção à Bastilha. Ainda que derrubassem o prédio errado, não podia de jeito nenhum perder o bonde da história. De volta ao telefone, fui logo perguntando: quando começou? quem está liderando? por que não me avisaram presto?

E ela, com voz de quem começou a ler um livro do Paulo Coelho: Calma, meu querido, eu tô falando de uma manifestação artística, não de uma manifestação popular, de um movimento estético...

E eu, incrédulo... sem entender as explicações que se seguiram sobre "instalação" e outras categorias estéticas e artísticas, com voz de quem terminou de ler Kafka, ainda ousei questionar: Como...? as estivas foram transformadas em arte? Por acaso o Lauro Sodré não está passando por reformas...?

- Não, companheiro, são as obras do Salão Arte Pará...

Preso ao materialismo dialético, classificado como ultrapassado por um funcionário do Pentágono que decretou o fim da história há alguns anos atrás, logo deduzi que o Lauro Sodré tinha entrado na era pós-moderna em plena crise do neo-liberalismo triunfante, confirmando de fato que o bonde da história tinha caído no prego por falta da luta de classes.

Afinal, a última vez que o povo da periferia entrou no Lauro Sodré foi em 1835, quando os cabanos criaram uma magnifica e única obra popular, digo, governo popular e, numa atitude respeitosa, instalaram estivas no interior do Palácio para não sujar o piso em mármore importado da Itália. Isso só aconteceu, é claro, depois de passarem por cima das autoridades que ali estavam instaladas. Dali o povo saiu em 1840, carregando nas costas as estivas e mais de 30 mil mortos massacrados pela cavalaria imperial, para nunca mais voltar. Alguns sobreviveram sem as orelhas, os mortos foram enterrados nos livros da história oficial e as estivas foram reinstaladas no subúrbio, que passou a se chamar favela na era moderna e de periferia no pós-modernismo, perdendo desde então a forma poética e/ou subversiva, segundo o ponto de vista panorâmico, de "cabanas nos arrebaldes da cidade".

Nos anos 80, quando o Lauro Sodré ainda abrigava a sede do governo, bem que a Comissão de Bairros de Belém, CBB, tentou reintroduzir o povo das estivas no Palácio, em vão... O que, aliás, só confirmou o fato histórico e olímpico de que a cavalaria, seja ela imperial ou republicana, é recordista em galope sobre estivas e que os cavalos não gostam do cheiro do povo.

Agarrado à ultima esperança de que as estivas faziam parte de um plano arquitetado pelo prefeito-menino-cabano de Belém, que fizera construir uma ponte entre o Palácio Antônio Lemos e o Lauro Sodré, por onde o povo entraria disfarçado de manifestação artística, e como a valise já estava pronta, fui até Belém para ver de perto as estivas arteiras. Além do que, pensei, se o disfarce fosse descoberto pela segurança, com as chances da Maria chances ser eleita, a gente poderia entrar pela porta da frente com carreata e tudo.

Ao se avistar o Lauro Sodré é difícil não se interessar por este palácio que já foi considerado o mais ambicioso, em tamanho e decoração, construído durante o período colonial brasileiro.

O Palácio foi originalmente construído em 1680, em taipa de pilão, para servir de residência aos governadores coloniais de passagem pela província do Grão-Pará. Fato que, diga-se de passagem, levou alguns especialistas a afirmar que o hábito de governar à distância é uma prática vinda de muito longe. Alguns historiadores afirmam mesmo que vem daí a explicação para o movimento separatista liderado pelo MST no sul do Pará, obrigando o Almir Gabriel a socorrer os latifundiários lá instalados - o desfecho desta história todo mundo já conhece. Hoje, compara-se o massacre do Eldourado com o episódio do "Brigue Palhaço", ocorrido durante a Cabanagem. Em relação a isso, todos os especialistas são categóricos: se os sem-terra tivessem se limitado a instalar estivas nas áreas de ressaca dos fazendeiros, o Almir teria ordenado a polícia atirar somente cal sobre os posseiros, o que os teria impedido, pelo efeito da asfixia, de massacrarem-se uns aos outros, e não teríamos presenciado aquelas cenas terríveis de alguns deles, posseiros, se suicidando com tiros e baionetadas nas costas.

De volta ao Lauro Sodré - em 1759, o Marquês de Pombal, que queria transferir as loucuras da corte para o Pará e instalar o "seu" iluminismo em Portugal, ordenou ao governador da província, Ataíde Teive, que fosse construído novo palácio, segundo a planta traçada pelo arquiteto bolonhês Antônio Landi, para abrigar a família imperial. Em 1772, o estilo neo-clássico italiano do Lauro Sodré foi apresentado en avant-premiere ao grande público. A família imperial acabou não vindo para a estréia e o Lauro Sodré acabou em crise de identidade, alojando ao longo do tempo, ora governadores sem teto, ora a burocracia estatal.

As diversas reformas realizadas durante o Império não chegaram a modificar a estrutura arquitetônica original do Palácio. Já no início do século passado, o governador Augusto Montenegro, com o advento do Ciclo da Borracha, remodelou o Palácio para servir de residência oficial, dando-lhe formas de ecletismo, conforme o espírito provinciano da República que então debutava. Nos anos trinta, quando a República envelheceu, o Palácio voltou a abrigar setores da administração pública, transferindo-se a residência oficial para a avenida Magalhães Barata e depois, nos governos militares, para as fazendas do Alacid Nunes e Jarbas Passarinho, respectivamente, na ilha do Marajó. Posteriormente, na Nova República, a residência oficial continuou na banda podre do Estado, digo pobre, percorrendo as fazendas do Jáder para finalmente se instalar na granja do Almir, em Ananindeua. Se a Maria tivesse ganho as eleições, ela teria levado a residência oficial para a banda rica do Pará, onde certamente ficaria melhor instalada. Mas, ao que parece, é o Jatene que vai continuar criando as galinhas dos ovos de ouro. Quanto ao Lauro Sodré, em 1971 ele voltou a sua forma arquitetônica original após reforma realizada pelo IPHAM.

E o que tem a ver todos esses fatos históricos com o título desta crônica? Tudo, afirmam peremptórios nossos especialistas. Caso o Montenegro não tivesse re-transformado a residência oficial em palácio governamental, o Almir não teria transformado a sede do governo em Museu do Estado (no início dos anos noventa), a Família Rômulo Maiorana não poderia instalar o Salão Arte Pará nos salões do Palácio (a partir de 1996), o Paulo Chaves, (que ainda não tinha entrado na história) não teria transformado os galpões da Boulevard em shopping center, não teria sua foto instalada no hall do Teatro das Dondocas e nem se apossado do Parque da Residência, e nós não teríamos tido a ocasião de apreciar as estivas dando voltas artísticas em torno do Palácio.

Herbert Marcus