Qualidade de vida é uma falácia
Pedro Paulo Ribeiro

Visitando escolas públicas ou dando uma volta nos ônibus de Macapá você sente na pele (ou no ouvido, nos olhos, nas narinas, dependendo do que quer que lhe agrida) o porquê de tanta descivilização e descidadanização do povo.

Outro dia fui à reunião bimestral do Colégio Amapaense para ficar a par de quantas anda o desempenho de minha filha que lá estuda. Neste quesito, tenho a relatar que suas notas não andam lá muito boas das pernas e adianto que já tomei as providências necessárias. Quanto às condições físicas da referida escola com tristeza constato o quão é gritante o abandono verificado nas nossas escolas públicas em todos os sentidos - não os sentidos descritos no início deste artigo. Todos sabem que isso não é (só - acho eu) culpa de nossos governantes da hora: são anos e anos de descaso e desacertos de toda ordem que só nos fazem crer que para o Estado e para o Município educação é algo totalmente fora de seus programas de governo, uma aberração que não vale a pena investir um real de plástico triturado. Tudo bem que hoje já existe a tal descentralização financeira, através dos caixas escolares e que o diretor e uma certa associação de cidadãos são responsáveis pela gestão financeira da instituição. Quanto a isso, me parece que o TCE iria colocar em pauta diversos processos pendentes nos últimos anos e entre estes se encontram algumas anomalias encontradas neste manuseio dos caixas escolares.

Pois bem, neste dia, um sábado chuvoso, os pais chegavam e se avizinhavam naqueles banquinhos grudados às colunas do hall de entrada. As funcionárias da limpeza mal tinham acabado de limpar o piso do hall e de repente saídos não sei de onde alguns alunos puseram-se a chutar umas garrafinhas de água mineral feito bolas de futebol e jogando toda sorte de lixo (tampinhas de refrigerante, embalagens de balas etc) no chão sem que ninguém da escola se prontificasse a mandar parar com aquela bagunça, já que os autores daquele derby fora de hora nunca tiveram, não têm e, a julgar pelo visto, vão custar muito a ter senso de responsabilidade e comportamento de seres humanos que para ali (a instituição de ensino) se deslocam no intuito de adquirirem noções básicas de educação que os credenciem como cidadãos. Mas eu comecei contando sobre o que observo andando pelos ônibus e é aí que eu vou chegar.

Não é de hoje que os motoristas de ônibus sabem que é proibido dirigir com o aparelho de som ligado nos ônibus. Os incautos acham que esse equipamento sonoro, ligado no volume máximo, alivia um pouco as tensões do dia a dia do passageiro fazendo com que o mesmo se esqueça de seus problemas mais prementes enquanto tem os seus ouvidos bombardeados com a "Eguinha Pocotó" ou a "Ragatanga" do momento. Quando a gente pensa que já viu tudo o que (não) tinha que ver, eis que sentado à janela dum coletivo que me levava para a segurança de minha residência no Pacoval - sim, ouvindo não a "Eguinha Pocotó", mas uma estridente e desnecessária música gospel, como se o deus da intérprete e do motorista fosse surdo, já que a música era dirigida a ele, penso eu - avisto um grupo de estudantes da faculdade que tem como lema saído da boca dum ator global "Qualidade de vida é uma conquista". O grupo saía apressado do lanche na panificadora mais próxima e duas alunas que se encontravam na retaguarda, talvez por estarem atrasadas, saíram da panificadora bebendo em copinhos plásticos seu refrigerante ou suco. Até aí, tudo bem. O problema é que nossas jovens protagonistas jogaram no chão não só a bonita visão de suas formas físicas - estas bem de acordo com o que manda o figurino - como também os recipientes nos quais traziam sua fugaz merenda! Este um gesto que mostra imaturidade intelectual, descaso com o público e péssima aplicação dos atributos que a família, a escola e a vida deveriam ter lhes ensinado. Fica a pergunta no ar: e se essas acadêmicas forem do Curso de Turismo? O que será que vão ministrar aos alunos, a outros profissionais e aos turistas quando aqui vierem? Que qualidade de vida é essa? De modos, que fiquei torcendo para que logo chegasse no conforto de minha humilde morada e pusesse-me a escrever estas palavras insufladas de revolta e também para não ouvir mais aquela gritaria infernal (me perdoe, deus dos que possuem ouvidos!) e para que meus olhos não fossem mais violentados por tão desmedido desprazer.