Injustiça não se mata no peito! Dói na alma.

Falo de meu amigo Eduardo, cardiologista dos bons, professor, doutor, ético, doce ser humano, espécime quase em extinção. Um longo papo embalou aquele encontro, lembrando estórias como, por exemplo, quando, algumas décadas atrás, me viu de camisa manga comprida ajudando a missa na Igreja de N.S. do Perpétuo Socorro, no igarapé das Mulheres e ao chegar em casa pediu ao pai uma igual. Outras lembranças foram pavimentando aquele encontro entre médico e paciente, até que finalmente entramos pra valer no objeto de minha consulta no meio de uma dura campanha eleitoral, nas eleições municipais de 2004. Na verdade eu estava curioso pra saber como andava o velho peito, cansado de tanta bordoada e fortes emoções provocadas pela atividade política que exerço com paixão e decisão. Devo dizer que é a política que resume todas as demais atividades humanas e que para mim a vida carece de sentido sem crenças e utopias.

Eduardo retraçou a história dos corações ascendentes tanto materno quanto paterno. Fui respondendo um longo questionário em ritmo de bate papo. Em seguida mediu a pressão, fez eletro, olhou no fundo do olho, fez tudo o que tinha direito; por último enumerou os fatores de riscos para depois sentenciar que tudo estava nos trinques, porém precisávamos fazer o teste de São Tomé, ou seja ver para crer através dos exames. Sempre conversando e explicando o funcionamento desse órgão fantástico que é o coração, preparou a lista com meu dever de casa, digo, prescreveu todos os exames necessários para confirmar seu diagnóstico clínico.

Satisfeito com a consulta e contagiado com o carisma e o afeto humano transmitido pelo Dr. Eduardo Costa saí decidido a cumprir fielmente todas as suas recomendações.

Lembro que naquele momento estava atarefado, em meio a tantas atividades de uma campanha eleitoral, onde me empenhava com absoluta dedicação e confiança em defesa de minha companheira Janete, uma candidata cuja biografia me enche de orgulho e que me faz sentir vitorioso, pois mesmo cercados por adversários opulentos e sem escrúpulos, lutamos bravamente, com dignidade e respeito ao nosso povo, o que nos faz felizes.

No meio disso tudo, em uma rápida e necessária ida a Brasília, fui fazendo os exames e os resultados se apresentavam tão normais que da metade em diante dava a sensação de perda de tempo e terminei deixando de fazer um único exame que completaria a bateria que me foi solicitada, exatamente o exame de esforço físico que permitiria detectar com antecedência a obstrução das coronárias que por bem pouco não me levou a um enfarto de conseqüências imprevisíveis.

Aconteceu em uma quarta-feira, em que andava as voltas com dois compromissos ao mesmo tempo, uma votação no plenário e uma audiência no Ministério da Justiça e mais um terceiro, não agendado, que se avolumava dentro do meu
peito prestes a provocar uma grande explosão. Já próximo ao ministério a dor era tanta que decidi retornar ao Senado. Na entrada do plenário pedi a alguém que me indicasse o serviço médico, atordoado bati por alguns segundos na porta errada, um cinegrafista que viu minha aflição me orientou e consegui chegar ao Dr. Osvaldo, médico plantonista que imediatamente socorreu-me agindo com precisão, de tal forma que em poucas horas estava fora de perigo após cirurgia cardíaca realizada pela competente equipe do Hospital Santa Lucia,comandada pelo Dr Juan Flavio Bresani.

Os anos vão passando e vamos acumulando experiências, umas boas, outras nem tanto, considero meu saldo amplamente positivo, dei de mim o máximo em todas as ocasiões e em todas as frentes em que fui convocado a lutar, em várias me apresentei como voluntário e na primeira fila, lembro-me da luta pela democratização do nosso país; do povo chileno rumo ao socialismo; de Moçambique livre do colonialismo Português; das greves dos canavieiros de 81 em plena ditadura, em Pernambuco; com os camponeses e seringueiros do Acre;e finalmente o PDSA (Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá); vanguarda na tradução, em políticas públicas, da nova forma de relacionamento entre o homem e a natureza. Estivemos em todas as paradas, de cara limpa e transparente, sempre do mesmo lado, de bandeira em punho nos arriscando por inteiro em defesa de nossas crenças e utopias políticas.

Já em casa com Eduardo, passado o susto e a hospitalização, o papo girou em torno dos acontecimentos, ouvi mais uma explicação detalhada sobre a dor provocada pela obstrução coronária. Segundo ele, essa dor a gente nunca esquece. Concordei em silêncio mesmo sabendo que a dor maior que fere a alma permanece intacta: A injustiça.

João Capiberibe,
Senador da República.
Brasília,
10/10/2004