A Menina que veio de Itaiara
Vania Beatriz

Aproveitei o feriado para fazer limpeza nos armários. Achei lá em meio as cartas , poesias, fotografias e uma porção de recortes de jornais, a coleção de crônicas da escritora paraense Lindanor Celina, que nos anos de 87/88 me dei ao trabalho de diariamente recortar das páginas de A Província do Pará, o mais antigo jornal diário de Belém. Na, mudança para Porto Velho foi uma das coisas que fiz questão de preservar, além da minha coleção de cartões-postais.

Depois da arrumação, aproveitei então para reler as crônicas Diário de Paris e além -1986, e Diário da Ilha/87, foi uma viagem fantástica ao seu mundo, que é também um pouco o meu mundo nas pessoas que , por conhecer pessoalmente ou de ouvir falar, me são familiares. De todas elas as mais conhecidas são Antônio Munhoz, o mais maravilhoso professor de língua portuguesa e literatura que já tive, em Macapá, e a Lana minha professora de Estética e Literatura Paraense, na UFPa. a quem devo o prazer de ter conhecido e aprendido a amar a literatura de Lindanor. Já que, aos oito anos, minha avó negou-me esse prazer, proibindo-me de ler o livro “Menina que Vem de Itaiara”.

1986/1987, lá se vão mais de oito anos. Como em suas crônicas me pergunto, onde andará Lindanor? Ainda vive? ainda leciona? ainda vai a Skyros? E Dymitrius e Maria , e o Kostas, agora um rapaz de 21 anos, já terá constituído família? Coisas que só Lindanor e suas crônicas poderão me responder, mas desde que vim de Belém, para Rondônia, fiquei muito mais longe das coisas do Pará, terra que amo, como se minha terra fosse, embora de certo modo o seja, posto que é terra natal de meu pai e de meu filho.

Nas férias, Macapá e Belém no roteiro. Estando com minha amiga Mª Helena, meio com medo de ouvir uma resposta que não gostaria, perguntei-lhe: Lindanor ainda vive? Para meu alívio ela diz "acho que sim", parece que ela esteve em Belém neste Círio e lançou um livro. Pergunto-lhe curiosa , qual ? "Memórias de uma Estudante Aposentada?", "Meu amado cativeiro?, "Lembras-te minha irmã?".

Não, ela não lembra, ! Tive que fazer uma incursão àquela livraria, onde comprei "A viajante e seus espantos" e a tantas outras , tentando conseguir recuperar minha coleção de Lindanor. É que eu gosto tanto, que sempre quero que mais alguém leia e goste, por isso vou passando os livros sem recomendar devolução e eles vão ficando por aí. "Estradas do Tempo Foi" foi-se com o Sérgio Luiz para o Rio de Janeiro. "Afonso Contínuo Santo de Altar" este um, não sei mesmo com quem se bandeou.

"A Viajante .." dei a Messieur Jacques, o francês pai de meus amigos Marc e France , que está se iniciando no aprendizado do português ; embora a linguagem de Lindanor não seja fácil para um estrangeiro. Imagino a dificuldade que ele terá com expressões que são tão nossas, da gente do Norte do Brasil.

Muito mais teria para falar de Lindanor Celina, temos em comum o gosto pelo teatro, pela literatura , pela língua francesa. Quando uma francesa perguntou me o que eu mais gostaria de conhecer na França, pensei em Museus, em Cafés, em gente simplesmente, mas respondi: não sei! Mas agora eu sei, gostaria de assistir a uma aula de literatura brasileira com Mme. Celina em Lille .

Certa vez, voltando de uma viagem à Manaus, veio aquele maldito " medo de avião" , para dissipar os temores pensei: mas eu tenho certeza de que ainda vou conhecer a Catharina (uma amiga de correspondência que mora em São Paulo) , portanto não pode ser agora que esse avião vai cair. Isso foi o suficiente para fazer o medo sumir.

Agora que já fui à São Paulo e conheci Catharina, preciso de um novo argumento para os próximos temores, aliás já não preciso: tenho certeza de que não morro sem antes visitar Lindanor Celina , na França. Não lhes parece razoável essa certeza? Assim além da minha, adio a dela também.

Publicada em 1997 no jornal Alto Madeira.