Lembranças dos personagens que fui

Antes que me apontem o dedo acusador, ou como diria João Ubaldo Ribeiro, antes que me denunciem à Academia, eu confesso: colei esse título da crônica do jornalista José Castelo “Lembranças do personagem que não fui”, publicada há alguns anos, em um jornal de São Paulo.

De poetas e loucos todos nós temos um pouco. Não sei se essa é a frase original, nem qual a sua origem. ( Mário Prata, se não a incluiu , inclua esta na próxima edição do “Mas será o Benedito?”) De qualquer modo, como as frases vão sofrendo adaptações no decorrer do tempo, faço eu a minha : de artista , poeta e louco , todos nós temos um pouco.

Das brincadeiras de criança em casa, reunindo irmãos e vizinhos (ora atores, ora platéia) às atuações no grupo de teatro amador formado por empregados da empresa onde trabalhei , em Belém, já deu para colecionar muitas situações engraçadas dessa pretensa vida de artista.

Vamos brincar de representar? Para desespero de Raimunda, nossa empregada, nem feia disso nem boa daquilo, lá se iam lençóis, roupas, sapatos e outros objetos, para compor figurino e cenário de nossas representações. Os temas iam desde adaptações de Monteiro Lobato a passagens bíblicas. Jane, minha segunda irmã levou muito tempo para se livrar do apelido de heureca, que ganhou por sua interpretação como a boneca Emilia : - heureca, heureca, corram todos o Visconde achou! Uma brincadeira que me fez aprender definitivamente que o verbo achar é um verbo transitivo direto, dos tais que pedem complemento, quem ouve logo pergunta, achou o que? E essa coisa que o achador achou é o complemento direto do verbo achar, ensinava à Emilia e a todos nós o sábio Visconde de Sabugosa.

Outra boa lembrança foi de uma cena em que uma mãe desesperada, implorava que uma filha fosse chamar Jesus, que estava pregando pelas redondezas, para ressuscitar a outra filha que acabara de falecer. A interpretação dos demais dera um clima bastante dramático, mas a irmã, que não era acostumada a participar das brincadeiras, entrou em cena, patética: - Jesus é pro Senhor ir lá com a mamãe! numa voz arrastada, preguiçosa, que ao invés de comover causou-nos frouxos de risos.

Já no Ginásio Feminino de Macapá, foi encenada a peça A Revolta dos Brinquedos. Fascinada não perdia um ensaio, uma vontade enorme de estar em cena, mas, o máximo que consegui foi atuar como auxiliar de palco, movimentando as ondas por onde navegava o barco do soldadinho de chumbo. Sabia de cor a fala de todos, tímida esperava aquele dia em que uma delas faltaria e eu seria convidada a substituir, mas esse dia não chegou. Irmã Elvira , a freirinha de olhos azuis como petecas, que exercitava sua veia artística como diretora da peça, não soube ver a minha vontade, a revolta dos brinquedos causou revolta também em mim.

Quem tem padrinho não morre pagão ( e essa Mário Prata?) , quem tem madrinha também não. Foi a minha quem me deu a chance esperada, numa festa junina, no SESI em Macapá, entrei em cena como a Dona do Bosque na apresentação da Dança do Guará. Depois, em Belém, criei o meu grupo de teatro, vieram então: a madrasta no Jardim das Flores que Falam, a bruxa -chefe na A Bruxinha que era boa, a baiana vendedora de cocadas em O Consertador de Brinquedos.

Uma causo divertido aconteceu na “A Bruxinha... “. Fomos , eu e minha amiga Malena (a Fredegunda na peça) assistir Carlos Eduardo Novaes em “Aventuras de um espermatozóide careca” no teatro do SESI em Belém. Resolvemos aproveitar para um "laboratório" rindo feito bruxas. Num descuido ela deixou escapar o tempo da risada, todos já haviam calado quando ela ainda repercutia uma tenebrosa risada de bruxa. Até Novaes perdeu o texto, agora todos riam de nós.

Vania Beatriz