APENAS UMA MANHÃ DE DOMINGO

Renivaldo Costa

Era mais uma manhã de domingo. Eles se encontraram casualmente. Ele estava fazendo seu cooper semanal na Beira-rio e ela levando o cachorrinho para passear. Uma calça de lycra branca passando fez com que ele se distraísse e tropeçasse no pobre cãozinho dela. Algumas mordidas e muitas desculpas depois, eles se apresentaram.

Ele, estudante de direito na Unifap, estagiário no Tribunal de Justiça, sagitariano, solteiro, de boa aparência; muito prazer. Ela, estudante, prestando o vestibular para Jornalismo numa faculdade particular medíocre, pisciana, solteira, linda; o prazer é todo meu.

Conversaram bastante. Ele contava como era distraído e as gafes que já deu. Ela ria e concordava, afinal era tão avoada quanto. Foram histórias dele derrubar a taça de vinho em cima da mãe de sua primeira namorada, dela bater o carro da irmã por avistar uma vitrine linda, dele esquecer de dar comida ao peixe durante uma semana, dela levar o gato para tosar e deixar o cachorro na caixa de areia. Muitas histórias em comum.

Tanto falaram que a fome apertou. Ele indicou um ótimo restaurante pertinho dali. Ela aceitou o convite prontamente. Ambos vegetarianos. Ele por motivos de saúde. Ela por pena dos pobres animaizinhos. Comeram um ótimo quiche de cenoura, arroz integral, caldo de feijão branco, salada e uma salada de frutas de sobremesa naquele restaurante adventista perto do Amapá Clube. Uma delícia.

Saíram caminhando a esmo pela cidade. Entretidos um com outro. Nem perceberam o trânsito. Passaram pela praça Veiga Cabral, pelo Teatro das Bacabeiras, andaram toda a Cândido Mendes e chegaram até a Fortaleza. Não viram a hora passar.

No meio daquela avenida movimentada ele a puxa, salvando-a de ser atropelada por um entregador de pizza em sua moto. Ela assustada o abraça. Olho no olho. Respiração ofegante. Corações acelerados.

Foi um beijo perfeito. Na dose certa de romantismo e sensualidade. Era como se tivessem ensaiado essa cena milhares de vezes. Ela de olhos fechados, sorvendo cada instante daquele pequeno momento. Ele acariciando os cabelos dela, sentindo seu perfume adocicado.

Por um pequeno instante o tempo parou. Os carros desapareceram, os prédios diminuíram, eram as únicas pessoas do mundo.

Após essa pequena folga, o tempo retorna implacável. Ela tem que voltar. Já era tarde. Estava atrasada. Se despedem e ela sai correndo. Ele corre atrás. O telefone. O número de seu telefone. Ela volta e escreve um pequeno bilhetinho. Ela vai embora.

Ele lê o bilhete. “Adorei te conhesser. Você é o mássimo. Beijaum.” Ele abaixa a cabeça e desiste de ligar.