UMA SAUDADE CHAMADA MARINA

João Silva

Bem ali no “Pastelito”, general Gurjão 77, vizinhança da mais que bicentenária igreja de São José, pertinho do Teatro das Bacabeiras, é o “endereço” de uma brisa constante, colher de chá do maior rio do mundo aos macapaenses que todos os dias, por dever de ofício ou não, saem de casa para enfrentar a canícula e as altas temperaturas desta época do ano...Lugar perfeito para encontro de velhos amigos, gente que faz questão de se rever amiúde para curtir uma cervejinha, um dedo de prosa sobre futebol e outras amenidades.

Somos todos contemporâneos de uma época inesquecível das nossas vidas, homens que já passaram dos 50, ex-peladeiros dos campinhos da Matriz, cada um com seu baú cheio de muitas lembranças, de boas lembranças...Os amores, a zona, os primeiros ideais, o banho de rio, o tempo de estudante, o pão do Sandó, o açaí do Ituassú, o pato do vizinho , o coco, a manga, a goiaba doce dos quintais de Macapá...

Lindoval, Jarbas, Bira, Lulu, Luis Santos,Cabeludo, João Coutinho, Ciro Cabeça são presenças constantes, além de outros amigos que aparecem de vez em quando. Há controvérsia sobre o futebol do Lulu, do Lindoval e do Guilherme Jarbas. Mais que o necessário para que um perna-de-pau confesso, nosso amigo João Coutinho, botasse ordem na casa: “Agora quem quiser contar vantagem tem que apresentar documento! Serve uma fotografia, mas aceito também depoimento dado por gente séria”.

Mexeu com os brios do Lindoval de muitos carnavais- mais de 60 pra ser preciso, que foi á luta: chamou a esposa, dona Célia, para revirar o velho baú da família...Dia seguinte chega ao Pastelito exultante, balançando nas mãos preciosidade de quarenta anos: uma fotografia do esquadrão do Juventus, em que aparece ao lado do Biló e Lelé...Na ausência do João Coutinho, o Cabeludo coça o bigode, resmunga, olha, põe a foto contra luz e reconhece: “É verdadeira!”.

Sim, mas o Lulú jogou alguma coisa? Pra ser sincero guardo vaga lembrança, mas ouvi dizer que ele introduziu a “trocada” nos campinhos da praça da matriz; também gostava de dar bicuda no ar e tinha uma senhora canela, só menos respeitada que a do Estandico, do “Vaca Podre” e do Birinha da tia América, hoje médico em nossa cidade; e o que dizer do Bira, médico também,e do Jarbas do tempo da Casa dos Padres, hoje professor universitário? Bem, o Bira era um bom atacante, sem querer puxar a brasa pra minha sardinha, e o Jarbas também; este tinha até pequena, barulhenta torcida organizada - uns crioulos que viviam na beira do campinho da Matriz torrando o saco do “91”, quando resolvia deixar aquele rapaz sardento na reserva do Internacional...Os crioulos, naquele patuá insuportável de se ouvir viviam berrando no pé da orelha do técnico turrão:- Bota Jabo, Jabo sabo fazer gol! Enfim, quando o velho e bom Expedito Ferro resolvia atender os crioulos, e o Guilherme não fazia nada, surpreendentemente o coro bem afinado se invertia: - Tila Jabo, Jabo não é de nada!

No papo molhado da gen. Gurjão também rola conversa séria sobre o futebol, amapaense. E aí unanimidade se chama Palito e Biló...Lelé, Perereca, Wanderley, Aroldo Pinto, Jangito, Ubiraci, Moacir Banhos, Aldemir França, Enildo, Albano, Léo, Zezinho Macapá, Bill, Bandeirante, Rodrigues Chevrolet, Mário Sérgio, Waldirzinho, Orivaldo, Celso, Alceu, Mussuim, Ciro, Enildo, Percival, Jason, Batista, Mafra, Avertino, Faustino, Nego, Baraquinha, Antônio Trevizani, Tiaguinho, Miranda, Jardel, Mareco, Rildon, Itamar, Marco Antônio, Amaral, Bira, Aldo, Marcelino,Zé Roberto, Álvaro, Roxinho, Guilherme, Tico-Tico também são lembrados.

Palito chegou a ir para o Vasco e Biló encantou Gentil Cardoso que o levou para o futebol paraense, onde é lembrado até hoje; Tico-Tico, que virou Zezé no Pará, fez história no Remo e, por pouco, muito pouco não foi jogar no Santos de Pelé e companhia. O Zizinho em entrevista ao Sportv, pouco antes de sua morte, elogiou Tico-Tico, que conheceu como treinador, em Belém. Bira brilhou no Remo e Internacional, Aldo no Paysandú, Fluminense, por pouco não foi convocado para a seleção brasileira de 82, e ambos foram campeões estaduais e nacionais; Marcelino jogou no exterior, Jason no Atlético Mineiro e no Flamengo.

Palito, em particular, só não venceu lá fora por causa de uma saudade chamada Marina, a mulher da sua vida; foi craque por aqui mesmo...No Santana, no Macapá, no Amapá Clube; também brilhou com a camisa da Seleção Amapaense, encantando a todos com o seu belo futebol; tanto que lá no Pastelito, quando aparece, para um dedo de prosa, todos se levantam para cumprimentar com respeito àquele coroa simpático que na sua mocidade foi chamado de “Pelé Branco do Amapá”.