MICHELLE

Renivaldo Costa - jornalista

Tudo começou quando a moça do apartamento em frente decidiu que era uma mulher livre para fazer o que quisesse à frente da janela - afinal, estava em sua casa, e quem não quisesse ver que não olhasse.

E todo mundo queria. Não havia um só homem do Edifício Palácio Imperial que não se postasse à janela mais ou menos às oito e quarenta da noite, logo depois do telejornal, quando Michele - a moça em questão - despia lentamente a blusa, deixando os belos seios à mostra, e pendurava-se no parapeito da janela de seu conjugado no Edifício Capibaribe, que dava fundos, claro, para o familiar Palácio Imperial.

Eram precisamente trinta e seis apartamentos, dos quais pelo menos a metade, naquela hora, tinha as luzes apagadas e a janela ocupada. Visto de fora, parecia muito um estádio de futebol em dia de bom jogo, com a geral lotada - embora sobrassem alguns lugares nos camarotes. O público, naturalmente, era masculino, embora corressem boatos a respeito do interesse de Cenira, uma solteirona de meia idade que volta e meia resolvia apreciar a lua. Sempre às oito e meia, oito e trinta e cinco, mesmo que o céu estivesse nublado. Nunca os boatos foram confirmados.

Quem não gostava da história eram as mulheres do Palácio Imperial: esposas extremadas, mães dedicadas, juravam não se tratar de ciúmes ou coisa semelhante, bobagens que ninguém mais sente nesta época moderna. Cada uma tinha seu justo motivo para bronquear. Julinha porque o marido nunca se dispunha a consertar a porta do armário, já quase despencando, dizendo que não tinha tempo - e achava todo o tempo do mundo para ficar babando na janela. Lurdinha porque o marido nunca ajudava com o Júnior, que justo nessa hora abria o berreiro diário (premonição?). Dona Maria das Graças porque seu filho Joacir ainda não tinha idade para essas indecências - mal completara dezessete, imagine! - e, além disso, deixava de fazer os deveres da escola para aboletar-se na janela.

Fosse qual fosse, uma razão sempre existia, e era justa, para bronquear com os pobres homens do Palácio Imperial, que, de seu lado, defendiam-se argumentando que precisavam de ar, que sufocavam dentro do apartamento e - oh! sofrimento! - nem podiam dar uma chegadinha à janela que pronto, estavam sendo mal interpretados, chamados de tarados e daí por diante, de tal sorte que as discussões acabavam terminando sempre do mesmo jeito. Em nada.

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Michele, que a tudo ignorava (ou fingia ignorar) continuava o reinado onde o parapeito era o trono e a noite testemunha silenciosa da lealdade de seus súditos.

Nos últimos tempos, dera de ligar baixinho a vitrola e cantar, não tão baixo, músicas lânguidas e sensuais, enquanto balançava os já famosos seios que o sereno de todas as noites tornava cada vez mais pálidos e desejáveis.

Ela nem ficou sabendo, por exemplo, que sua desinteressada liberdade à janela tinha sido causa do desquite de Carolina e Pedro, um casal que já andava às turras no 207 do Palácio Imperial. Nem tampouco podia imaginar que a forte anemia recentemente adquirida por Joacir tinha suas causas mais imediatas em certo desforço físico que ele teimava repetir à exaustão todas as madrugadas, rendendo homenagens, com a imaginação, àquela maravilhosa sereia de quem só conhecia os peitos, o primeiro par de peitos que a vigilância constante de dona Maria das Graças não lhe pudera impedir de ver e venerar. Michele não podia sequer sonhar com os pequenos dramas que causara, pois nem sabia da existência de Pedro, Carolina, Joacir e todos os moradores do Palácio Imperial - que, de resto, para ela nem Palácio Imperial era, não sabia o nome do prédio, sabia apenas que era aquele prédio de pastilhinhas cor-de-rosa que dava fundos para sua janela.

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E assim se arrastavam as coisas, com uma ou outra ameaça de separação, a anemia que não havia meio de sarar e até uma tentativa de suicídio da Aninha, moça franzina e insegura, felizmente convencida pelo marido que era o único amor daquele pobre moço ingênuo, cujas escapadas para a janela refletiam apenas e tão somente interesse pela astrologia - não, nem mesmo tinha notado os seios daquela loura oxigenada, que bobagem, ele olhava mesmo era para as estrelas. E que estrelas!

Tudo se arrastava, até mesmo a tentativa da síndica do Palácio Imperial de fazer queixa à Polícia para acabar com aquela indecência - não se sabe o motivo, mas ela nunca conseguiu o número de votos necessário para aprovar a medida nas assembléias de condôminos, ultimamente às moscas, frequentadas, no máximo, por duas ou três esposas do prédio, que, à falta de condições para expulsar Michele do outro prédio, contentavam-se com lamúrias e promessas de vingança contra seus maridos, aqueles devassos irresponsáveis.

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E tudo continuaria como sempre, se Michele, sem prévio aviso, não tivesse desaparecido da janela.

Nos primeiros dias, a platéia, decepcionada mas esperançosa, concluiu que se tratava de uma viagem ou coisa parecida; e se assim fosse, logo o mais belo par de seios do bairro estaria de volta à habitual moldura, que os transformava numa verdadeira obra-prima de Da Vinci com a vivacidade de um quadro de Dali.

Contudo, o tempo (esse destruidor de ilusões) foi passando, e nada de Michele voltar.

Todos os dias, os súditos do Palácio Imperial arriscavam duas ou três olhadas pela janela em direção ao apartamento de Michele, e nada dela aparecer com seus lindos seios. Ah, que saudades daquele par de obras de arte!

Quarenta dias depois, a notícia explodiu no Edifício Palácio Imperial. Contam-se inúmeras histórias sobre aquele dia: pelo menos oito desquites teriam se consolidado; dois casais mudaram-se às pressas e não deixaram endereço; a solteirona Cenira teria caído em profunda depressão, que a teria levado, mais tarde, ao suicídio; Joacir teria fugido de casa para dividir um conjugado com um amigo, não sem antes ter dado uma surra de cinta em dona Maria das Graças; e os apartamentos de fundos do Palácio Imperial, hoje, estariam todos guarnecidos de pesadas e escuras cortinas, que, segundo se diz, jamais são abertas.

Tudo isso pode ser lenda, tudo isso pode ser verdade. Há poucas chances de se apurar com certeza, pois nenhum dos personagens do drama mostra-se disposto a falar sobre o assunto.

A única verdade incontestável - assim mesmo, porque escrita no inquérito policial que se seguiu e que serviu de estopim para o barril de pólvora no qual se transformou o Edifício Palácio Imperial - é que Michele, a bela Michele dos seios mais lindos do bairro, foi encontrada morta no minúsculo banheiro de seu conjugado; a seu lado, uma caixa com muitos, muitíssimos bilhetes de amor, assinados por moradores do prédio de pastilhas cor-de-rosa que dava fundos para o Edifício Capibaribe. Um desses bilhetes, aparentemente jamais respondido, levava a assinatura de uma tal Cenira.

Nunca se descobriu o assassino ou assassina de Michele.

Michele, aliás, nem era seu verdadeiro nome. Tratava-se do nome de guerra de João Alberto Cerqueira Dias, 23 anos, dançarino de cabaré por profissão e travesti por escolha pessoal, feita muitos anos antes, numa noite fria e escura perdida na memória dos tempos.