O Natal


A cidade está toda enfeitada. Ruas, praças e monumentos estão decorados e seus efeitos aparecem mais à noite, quando luzes multicoloridas piscam sem parar. Várias residências enfeitam as suas fachadas e os seus jardins. As lojas capricham na decoração também. Todos entram no clima de fraternidade para comemorar o nascimento do Salvador. Os presentes são o assunto do momento. Muito importante também é a escolha do local da ceia. Tudo é minuciosamente preparado. Até as músicas são calmas, suaves e transmitem uma sensação de paz e harmonia.

Mas os problemas não desaparecem por causa do clima de festa. Não muito distante do Papai Noel, com sua roupa vermelha e o saco de presentes, o mendigo pede algo para comer. Na porta da loja, que exibe presentes caros, um menor carente tenta conseguir um trocado para levar para casa. Rondando o supermercado, com prateleiras repletas de guloseimas para a ceia, os catadores procuram restos. Como mudar isso?

Seria o caso de reclamar da falta de solidariedade? Talvez, não. Sabemos que várias pessoas se dedicam aos mais necessitados. A maioria sem grandes recursos também. Fazem campanha para arrecadar alimentos e brinquedos para os que não sabem o que é esta festa. Geralmente nem recebem apoio ou reconhecimento pelo que fazem. Seriam esses anônimos os verdadeiros papais noéis? Como se vê, não é preciso vestir uniforme para fazer caridade. Basta ter boa vontade e sensibilidade para lembrar que existem outras pessoas mais necessitadas do que nós.

Diz a lenda que o bom velhinho, que era solitário, tirava um dia do ano para recompensar os garotos que tinham se comportado bem. Na calada da noite, sem ninguém perceber, entrava pela chaminé da casa e deixava um presente proporcional às boas ações da criança. Trabalhava o ano todo em sua fábrica só para isso. Sua satisfação era ver a alegria no rosto de cada um. Seu único critério para definir o valor do presente era o merecimento, independentemente do poder aquisitivo.

O mundo mercantilista logo viu aí uma oportunidade para aumentar os seus lucros. O merecimento foi trocado pelo poder do dinheiro. O público-alvo deixou de ser a garotada. O marketing, através da mídia, oferece as últimas novidades em artigos de luxo e locais paradisíacos para esta noite especial. Há muito tempo o Natal deixou de ser uma festa familiar cristã. Hoje se valoriza o exibicionismo, o supérfluo, os bens materiais... o estritamente tangível.

Quantos jovens visitam um presépio? Quem assiste à Missa do Galo? O que os pais ensinam sobre esta tradição? Lamentavelmente, poucos explicam sobre o nascimento do Salvador, mas muitos prometem a recompensa do bom velhinho. Mais uma vez, o comércio se sobrepõe às crenças, princípios e valores. E assim as gerações vêm se transformando ao longo da história. Será que ainda vai restar um pouco de bondade nas pessoas? Será que ainda vai perdurar o verdadeiro espírito natalino?

Que o esforço e a dedicação para se ter uma ceia farta e uma árvore de Natal apinhada de presentes sejam apenas uma parte do que fazemos. Jamais esqueçamos que outros, não tão afortunados, também são seres humanos e precisam da nossa solidariedade. O verdadeiro sentido desta festa é para lembrar de alguém que, apesar de ter nascido em uma simples manjedoura, salvou a humanidade e mudou a história do mundo através dos seus atos. Feliz Natal!

José Roberto Ichihara (*)

(*) Engenheiro mecânico, especialista em gestão empresarial e cronista.