As peripécias de um velho tucuju

Emanoel Reis


De repente, aos 54 anos, nosso amigo Euclides decidiu caminhar para perder alguns quilos. Atitude mais do que saudável. Apoiado por dona Graça, esposa abnegada, lá ia ele, de camiseta cavada, calção de malha bem justo, tênis novinho em folha. Na primeira manhã se sentiu como um rapazinho, todo serelepe, esnobando fôlego. Verdadeiro milagre!

Nos dias seguintes, o Euclides parecia mais disposto. Depois de uma hora de caminhada, encerrava sempre com 20 flexões, 50 abdominais e 30 embaixadas.

Espantoso. Afinal, fumante inveterado (chegava a consumir 30 cigarros por dia), estava conseguindo provar de que o tabagismo, ao contrário do que apregoa o MS, pode ajudar conceituados atletas, como o nosso Jader Souza, a superar suas limitações.

Cogitou, inclusive, em sugerir a inclusão do tabaco na dieta dos nossos futuros campeões olímpicos convicto dos benefícios que algumas baforadas poderiam proporcionar a esses deuses do Olimpo. Aos céticos costumava responder, jocoso, que há 40 anos mantinha pulmonar ligação com a nicotina e nem cogitava largar relação tão profícua.

Assim, continuou ele a comportar-se como fundista. Passou de 60 para 90 minutos de caminhada.
Um prodígio. No trabalho, exibia uma pança menor.

Alardeava ter perdido quatro quilos. Também resolveu cuidar da aparência. Trocou a antiga dentadura. Ria de qualquer piada. Mesmo as contadas pelo Joel. Irradiava satisfação e vitalidade.

Mas, o Euclides exagerou. Passou do ponto. Na ânsia de entrar em forma, descuidou do resto e descobriu que alguém estava reservando para ele uma passagem só de ida na Empresa Aérea São Pedro. Então, o velho tucuju refreou seu ímpeto maratonista. Foi aconselhado a largar o cigarro, a parar com as cervejas, a esquecer o sexo.

Hoje, o Euclides é só passado.