As peripécias de um velho tucuju (2)

Emanoel Reis

Com os olhos grudados no telhado, Euclides meditava profundamente sobre os estragos da noite anterior. Na boca, um gosto horrível de "cabo de guarda-chuva". Já perdera as contas da quantidade de água gelada ansiosamente consumida para aplacar a ressaca.

Pernas bambas, tremedeira nos braços, dores no fígado e na cabeça. Mal podia agüentar as travessuras dos filhos. Os tímpanos, sensíveis naquele momento, badalavam nos ouvidos mais do que chocalho nas mãos de criança.

Mas, apesar de toda rebordosa, Euclides recordava, com uma ponta de sorriso nos lábios, da farra iniciada no ALAIQUE. Entre uma e outra partida de sinuca, garrafas de cervejas eram esvaziadas com sofreguidão.

Depois, uma incursão estratégica na madrugada, um bate-papo sem compromisso com alguém num bar. Não conseguia lembrar se era homem ou mulher. Por via das dúvidas, passou levemente a mão na bunda. Parecia tudo em ordem. Abriu a carteira e conferiu as poucas cédulas que restaram.

A pior parte, no entanto, estava para acontecer. Dona Graça, bastante zangada, abrira a porta do quarto e se postara na frente do intrépido boêmio. Com as mãos na cintura, a senhora dos doces e salgados do Laguinho, pergunta ao marido:
- Meu Deus, Euclides! Por que tu bebes tanto, assim?

E ele, voltando-se languidamente para a esposa, responde na bucha:

- Oh, meu bem! Bebo porque sou egocêntrico... Gosto quando o mundo gira ao meu redor.