As peripécias de um velho tucuju (3)

Emanoel Reis


Talvez poucos recordem, mas o pai do Euclides já foi prefeito de Macapá. Por força e graça do todo-poderoso Getúlio Vargas. Isso aconteceu nos idos anos 50, e o governador do Amapá, à época, foi obrigado a nomear o genitor do nosso herói. "Foi obrigado" porque ambos não se bicavam já que o alcaide a ser empossado remava na oposição.

O fato é que o Euclides nasceu em berço de ouro. Com todas as regalias permitidas ao "filho de um prefeito" prestigiado na corte do "Pai dos Pobres". Os primeiros seis meses de vida dele foram de paparicos dos padrinhos, tias e primas. Tudo do bom e do melhor. Inclusive as babás. Com elas o Euclides, mesmo em tenra idade, passou inesquecíveis tardes mormacentas reclinado sobre terno regaço.

Contudo, essa boa vida mitigou. Utilizando-se de um ardil, o governador fez o prefeito Moraes pedir exoneração do cargo sem que ele, prefeito, tenha se apercebido disso. Uma história do "arco da velha".

Bem, pelo menos essa é versão defendida com unhas e dentes pelo velho tucuju.
Aos vinte e poucos anos, Euclides se elegeu vereador. Como bom filho que foi tratou de homenagear o pai (que já tinha viajado para o andar de cima), dando o nome dele a uma avenida - hoje bastante movimentada. Um jeito especial de preservar a memória do patriarca. Atitude mais do que elogiável.

Embora tenha tentado, não conseguiu retornar à Câmara de Vereadores de Macapá. Um alívio para uns, um agravo para... Para quem, mesmo? Bem, deixa pra lá. O importante é que tempo, mas muito tempo depois, o Euclides nos relatou esta epopéia e concluiu que o padrinho dele (Coaracy Nunes) é nome de praça, na frente do Aeroporto, e o pai, nome de avenida (Claudomiro de Moraes), no Congós.

- E eu? - quis saber ele, olhando para nós, que tínhamos acabado de ouvir esta história mirabolante.
Será que não vou ter meu nome numa ruazinha, sequer?
O cartunista Ronaldo Rony, que prefere perder o amigo, mas não a piada, aproveitou a deixa para encaixar um petardo no velhote.
- Não te preocupa, Euclides. Vou arrumar um bequinho pra ti, nem que seja ali, pelo Boné Azul. Já pensou: "Beco Euclides Campos de Moraes". Muito chique.