Sobre usos e abusos do Pós Scriptum

Renivaldo Costa

Acho que pouca gente sabe, mas o "P.S." (conhecido popularmente como "P.S.") é um recurso muito antigo, utilizado após a assinatura final das cartas escritas à mão (isso mesmo, sem teclado), quando se percebia que algo deveria ter sido escrito, mas foi esquecido.

Por uma incrível coincidência, o "P.S." foi teletransportado do papel para o monitor, e nós (que nunca mais escrevemos uma carta) ainda utilizamos esse interessante recurso, o que é bem incoerente, se levarmos em conta que em qualquer editor de texto, temos todos os recursos para adicionar um novo trecho no corpo de uma carta (perdão, e-mail) já redigida.

Por muito tempo fiquei me perguntando o porquê da sobrevivência desta solução. É como ver alguém desprezar o controle remoto de uma TV, pela força do hábito de se levantar em todos o intervalos para dar uma zapeada nos seus 128 canais a cabo. Não faz muito sentido.

Depois de muito observar e pensar, cheguei há algumas conclusões. Isso acontece:

Em primeiro lugar pela preguiça. Tem muita gente que não tem mínima a decência de rever seus próprios e-mails, e caso se lembre de qualquer coisa depois de escrever " []'s " acrescenta um "P.S.zinho" pra não ter que pensar onde colocaria mais um assunto no meio do seu texto.

Num caso mais nobre, o "P.S." é usado por educação quando não se tem assunto com o destinatário. Por exemplo, quando você escreve por um motivo qualquer para alguém com quem não conversa há algumas décadas:

"Oi Alfredinho, aqui é o filho da Dona Margarida. Estou escrevendo para comunicar que a minha cadela teve cria de 27 lindos vira-latinhas, e por acaso, me lembrei que a sua mãe, a Tia Josefa, adora cachorros. Olha só ... será que ela não quer uns 26 só pra ela?

P.S.: E aí, primo?! Tudo bem com vc? Como vai a vida?"

Outro uso está no reforço de algo que já foi dito ou combinado mas deve ser lembrado. Aproveita-se, então, o fato de que o "P.S." é a última coisa que a pessoa irá ler:

"Fala Almeida, belezinha?!

O churrasco na casa da Lurdinha foi um espetáculo, né ?! Aliás a Lurdinha na piscina tava coisa de louco ...

Aqui vão as fotos que tirei com a minha camerinha digital. Dá uma olhada com calma pra ver se lembra de algo ... hehe (você travou, heim?!)

Abs!

P.S.: Não esquece de que terça-feira é o dia do nosso jogo no Arena Soccer."

Nos casos mais extremos, o "P.S." contêm todo o assunto que realmente interessa. É um eufemismo para uma cobrança severa, um pedido descarado ou uma notícia trágica (uma versão digital do "Pai, estou grávida ... passa o sal.) :

"E aí, Cabeça?! Beleeeza ???

Cê viu que louco o lance do cachorro da tia Margarida, véio?!

27 cadelinhos! Mó doideira!

Bom, acho que é só !

P.S.: Quando você vai me pagar a droga da guitarra que você quebrou imitando o Jimmy Hendrix naquele dia?!?!"

Ou então:

"Oi Heraldo, tudo bem com você, Chuchu?

Não sei se você está lembrando de mim ... mas aqui é a Lú do Colégio Amapaense, lembra ? (a Lú foi tudo que o pobre do Heraldo desejou durante todo o ginásio e colegial);

Eu sei que a gente não se falava muito no colégio (a Lú nunca olhou pro Heraldo naquela época). Mas acabei me lembrando de você um dia desses, quando te vi numa entrevista na TV Amapá. Parabéns, viu! Fiquei super orgulhosa.

Manda notícias ... tou com saudade!

P.S.: Ah ... só pra saber, você sabe de alguém que possa precisar de uma secretária bilíngüe (português fluente!) ?"

E pra piorar :

"E aí Alberto,

Aqui é o Alfredo. Como vão as coisas por aí na pós-gradução?

Legal ... bom saber ...

Bom ... é isso aí.

Té mais!

P.S.: A Mãe morreu."

É por esses e outros exemplos, que acabamos entendendo porquê o "P.S." sobrevive e deve permanecer entre nós, ainda por muito tempo.

P.S.: É claro que eu não poderia deixar de fazer essa piadinha sem-graça no final dessa crônica.

P.P.S.: Entendeu ?