TEIXEIRINHA

Não sei porque, mas esqui náutico pra mim é o Teixeirinha. Talvez por causa da rima e pelo fato de ser a única praia da região, o Teixeirinha sempre estava a esquiar na Fazendinha. Era infalível. Não perdia um sábado ou domingo, mesmo um feriado.

Daí veio a associação do esqui náutico com o Teixeirinha, imagem fixada na infância, como um cartão postal em movimento. Aos 14 anos fui morar em Belém e vi outros esquiadores nas águas de Mosqueiro e Salinas; não era a mesma coisa, não tinham a leveza e a graça do Teixeirinha, sobretudo o fascínio que ele provocava no menino pregado ali na praia. Mesmo a intrepidez das manobras dos heróis do cinema, projetadas nas vesperais do João XXIII deixavam-me indiferentes. Achava o azul do oceano, um cenário impróprio para esquiar - faltavam as ilhas amazônica ao fundo, o arquipélago das Cavianas e Mexianas, e principalmente a paixão do Teixeirinha, que na sua magreza parecia flutuar levado pelo vento.

Apesar da imensa vontade que o Teixeirinha me inspirava, jamais pratiquei o esqui náutico. Nos onze anos em que vivi na França pratiquei o esqui de montanha. Todos os invernos ia aos Alpes com um prazer imenso. Na solidão dos cumes e vales alpinos deixava-me atirar pela força gravitacional, que mais parecia ser a ''voadeira'' do Teixeirinha puxando um menino equatorial sobre desfiladeiros enevados. O rosto bronzeado pelo sol das altas montanhas, a neve fofa e leve, ''la podreuse'', tudo era a memória solidificada do Teixeirinha deslizando sobre as águas barrentas do Amazonas.

Nunca conheci pessoalmente o Teixeirinha, bem pouco sei dele. Somente o que muitos sabiam. Era proprietário de um posto de gasolina em Macapá, oriundo de uma família belemense. Morava no Bairro Alto, em frente ao cemitério. O que me importava mesmo era ver o Teixeirinha esquiando, o mistério da sua magreza desafiando o encanto da Iara. Naqueles domingos havia só eu na praia e o Teixeirinha na água.

De retorno ao Brasil, soube que o Teixeirinha morrera, ironia do destino, em um acidente de carro à caminho de Salinas, onde talvez fosse esquiar. Agora, com certeza, ele está esquiando em outras praias... deslizando entre praias-nuvens, nuvens-águas...


Texto e fotos: Herbert Marcus