Tem governo?

Euclides Moraes

Contam os mais antigos que, ao desembarcar no velho trapiche da cidade, a primeira pergunta do recém-chegado intendente da Capitania dos Portos de Macapá foi dirigida ao velho marinheiro, tripulante da embarcação. Aqui tem governo?
Tem, respondeu o homem. Sou contra, disparou o mais novo habitante da cidade. Instituía-se ali, naquele momento, a oposição no Amapá, que, mais tarde, encontrou abrigo sob a bandeira do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB de Vargas.

Lá se vão mais de setenta anos desde o dia em que Claudomiro Moraes ancorou seus sonhos na terra dos Tucujus.
Zito Moraes, como passou a ser conhecido pela gente do lugar, era uma figura carismática. Simpático, bem humorado,
bom papo, instrução básica. Um autodidata e boêmio emérito, que não dispensava uma e outra rodada da boa pinga nos botecos da moda, com preferência para os mais democráticos onde a freqüência permitisse confraternizar com todos os níveis da representatividade social, política e econômica da época, sem discriminar cor, credo, gênero, raça, nível econômico ou social.

Assim que Zito Moraes construiu sólida liderança na pequena cidade. Capitaneou inúmeras campanhas políticas e amargou derrotas memoráveis por conta dos bizarros expedientes eleitorais praticados à época pelos donos do poder que, entre a violência e a imposição do terror, ainda "emprenhavam" urnas, substituindo cédulas da oposição por votos de seu interesse. A oposição nunca saia vitoriosa.

Nunca. Assim, sucessivamente derrotado nas contendas eleitorais, Zito Moraes passou por humilhações de toda sorte, incluindo prisões, perseguições inomináveis e apedrejamento da própria casa onde morava com a família.

Antes, próspero comerciante, Zito Moraes morreu pobre.
No último leito não lhe faltou o afago das mãos enrugadas de Dona Dica, sua mulher, que, altiva, resistiu e sobreviveu a
tudo com a dignidade das grandes mulheres que comungam dos ideais de seus homens e com eles compartilham os bons e os maus momentos "até que a morte os separe".

Foi uma vida inteira perseguindo os ideais das mudanças, da democracia, da liberdade, da cidadania e da alternância de poder que não viu acontecer no Amapá. Em 1970 articulou, já no MDB, o lançamento de uma força jovem para enfrentar o todo poderoso caudilho Janary Nunes. Eram as eleições à Câmara Federal com vaga para apenas um deputado. O MDB ganhou esse histórico pleito. Antonio Pontes entrou para a história como o primeiro político a vencer a oligarquia Nunes, que durante décadas fez e aconteceu no Amapá. Mas Zito Moraes não comemorou essa vitória. Não votou nas eleições que finalmente venceria. Morreu dia 30 de outubro, dezesseis dias antes do pleito. Consta que, vinte dias antes da dita eleição, já num dos leitos do Hospital Geral de Belém, no Pará, enfermo e privado de quase todos os seus sentidos, apenas ouvindo e falando com dificuldade, chamou o filho mais novo e, sussurrando aos seus ouvidos, pediu notícias da campanha eleitoral que se desenrolava em Macapá - queria saber se seu partido e seu candidato ganhariam ou não aquelas eleições. A resposta veio num entusiasmado sim. E foi possível perceber naqueles lábios contraídos pela dor da enfermidade um enigmático e derradeiro sorriso de felicidade. Foi o último ato político de Claudomiro (Zito) Moraes, que hoje tem nome de rua no bairro do Buritizal, por conta de uma breve passagem como prefeito de Macapá. Mas essa é uma outra história.

Zito Moraes não viu nem festejou a vitória dos seus ideais, é verdade. Como também é verdade que, partindo cedo, pelo menos privou-se de frustrações maiores, como assistir aos descaminhos dos interesses que hoje pontificam o exercício da política no Amapá, onde a honra, a seriedade e o compromisso com os interesses comuns são cada vez mais raros.

Citar exemplos é informação redundante até aos menos atentos à história contemporânea.

Depois de tudo isso, fico imaginando seu Zito Moraes, depois da sua grande última viagem, aportando no cais do Paraíso e, determinado e irreverente como ele só, perguntando a Pedro: Aqui tem governo?

Euclides Moraes
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