MORRA O TRANCA-RUA!!

João Silva

Vai tirando o cavalinho da chuva, porque não é o que você está pensando. O papo é sobre outro tranca-rua, que nada tem a ver com motoristas lerdos, como ensina o mestre Aurélio Buarque de Hollanda; também não se trata do enxú Tranca-ruas, senhor das encruzilhadas, que vive por aí assustando notívagos, retardatários, gente que ganha o pão de cada dia trabalhando de noite, ralando na madrugada, enquanto a cidade dorme. Eu mesmo, na minha juventude boêmia, cheguei a me assustar com a figura do Tranca-ruas bem no caminho por onde deveria passar...

Nada que não possa explicar: é que eu e um grupo de amigos chamamos de “tranca-rua” essa mania de interditar as artérias de Macapá por qualquer motivo...Muitas das vezes para promover um bingo, um pagode, uma corrida de bicicleta, ou até para comemorar o aniversário de um moleque, como aconteceu na Jovino Dinoá, em pleno sábado, em fevereiro deste ano. A cena patética para o cidadão desrespeitado no seu direito, mostrava bem no meio da pista de rolamento crianças chafurdando dentro de uma bolha de plástico sob olhar orgulhoso dos responsáveis pela lambança. Quanto custa uma irresponsabilidade dessas para uma cidade?

Não é difícil chegar-se a tamanho provincianismo, com toda sua capacidade de gerar transtornos para uma população inteira. Basta ir ao Detran, à Polícia Militar (às vezes nem é preciso) e a rua ou Avenida é fechada. A população, que paga imposto para utilizar a malha viária que se lixe para achar alternativa no trânsito caótico, já que não é avisada de nada e vai ter mesmo que gastar mais tempo e combustível para chegar onde quer chegar, mesmo que seja a um hospital, a uma delegacia, ao pronto socorro, à maternidade. Nos centros urbanos mais organizados do País, as interdições absolutamente necessárias são avisadas com antecedência e a engenharia de trânsito divulga croqui na imprensa orientando por onde o tráfego poderá fluir sem atropelos de última hora.

E por que essa coisa terrível de fechar ruas prospera em Macapá, numa Capital de Estado, assumindo ares de metrópole? Era o que gostaria de saber comerciante que se achou prejudicados com a interdição da Cândido Mendes, numa sexta-feira à tarde, por conta da abertura de um evento realizado pelo Tribunal de Justiça do Amapá, no Teatro das Bacabeiras. Os empresários, tomando um prejuízo atrás do outro, não concordavam com os três dias de interdição nem com o exagero da área interditada; segundo eles, dois ou três sinaleiros, sem estardalhaço, garantiriam o evento, evitando transtornos para a atividade comercial, ou qualquer impedimento ao direito de ir e vir dos cidadãos.

Outra coisa chata, burra, insensata, ocorre nos fins de semana. Alguém programa uma corridinha de bicicleta, um trio elétrico, uma peladinha na beira do rio e pronto...Ninguém pode mais trafegar na orla. Talvez seja o “tranca-rua” que mais cause indignação aos motoristas. E o mais acintoso de todos é o tal do carnaval fora de época, que poderia ser realizado no sambódromo e não na frente de Macapá; pior que com o aval da PMM, que em nenhum momento considerou os enormes prejuízos que esse absurdo impõe a vida de uma cidade que não pode prescindir, por três dias seguidos, da sua Avenida mais bela e mais importante, que é a Beira-Rio. Ainda me impressiona, em particular, o apóio oficial a eventos realizados em lugares inadequados, que nada tem a ver com as manifestações culturais do povo do Amapá, que não se beneficia em nada, já que a grana apurada vai embora com os empresários fortalecer a economia de outros Estados.

Em qualquer cidade que tenha governantes atentos e sensíveis não se interdita ruas e Avenidas estratégicas para a normalidade do trânsito, em qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, como se faz em Macapá, em relação às suas vias mais importantes; muito menos por qualquer motivo. Isso só vai acabar quando houver respeito aos cidadãos, mas vale ainda lembrar que o abuso das vias interditadas também está ligado à negligência e falta de ações integradas dos poderes públicos, que não fiscalizam a execução das obras de infra-estrutura nem se empenham, quando o fazem por administração direta, em executar um serviço de qualidade, duradouro, capaz de evitar que ocorram reformas sobre reformas e mais vias interditadas.

Os efeitos de tanto descaso na aplicação do dinheiro público, de tanto desperdício, estão por toda parte...No muro de arrimo do Perpetuo Socorro e do Jandiá, aos pedaços, destruído pelas águas do Amazonas, nos mondrongos assassinos espalhados na via pública à espreita de motoristas incautos, na buraqueira e valas sobre valas, estas presumivelmente abertas para corrigir problemas que na verdade nunca são corrigidos. E não se abre valas ou se fecha valas na via pública sem desviar o trânsito, sem causar mais transtornos aos motoristas. Na JK, entre a Leopoldo Machado e a Ivaldo essa coisa medonha virou um caso de polícia.

Infelizmente, ao invés do bom senso, prevalece a falta de respeito ao eleitor, ao contribuinte, ao cidadão. Os que exercem os poderes públicos, que deveriam dá exemplo de competência à frente das instituições importantes, na verdade revelam o gosto pelo autoritarismo das ruas interditadas; gente que não se incomoda com nada, além dos polpudos vencimentos...Nem com a cidade de pernas pro ar, sob frenesi incômodo das reformas que passam de governo para governo, muito menos com o quê significa um tranca-rua para o comércio, para a população e o trânsito de Macapá que por si só já é um grande problema à espera de uma solução milagrosa.