UM DIA DE JANEIRO

Luli Rojanski

 

Quando chegamos à comunidade do Tabaco, numa manhã escolhida
pelo sol, havíamos atravessado uma noite de densa chuva.

Ao anoitecer do dia anterior, as guaribas ocuparam, com sua reunião
diária, o silêncio dos nimbus em formação, a algaravia dos
pássaros em recolhimento e o movimento indócil da floresta sob a ação do vento que prenunciava a chuva. No fundo de nossas redes, atadas lado a lado ao abrigo das varandas da fazenda, nem todos chegamos a dormir, ouvindo a tempestade que, no seu encontro com o rio Araguari, agitava os barquinhos atracados na margem.

Somente ao amanhecer notamos a presença dos besouros. Forravam
o chão, ao redor de nossa coleção de redes atadas às vigas, e estavam
todos mortos. Ocupados com a visão mágica de guarás
vermelhos, de bandos de garças e mergulhões dançando pares de asas num céu lavado pela chuva, não chegamos a nos perguntar por que os
besouros haviam amanhecido mortos. Mas esta lembrança tem agora qualquer coisa de insólito.

Pelas frinchas de minha memória, vejo um guarda ambiental paramentado de verde, assobiando uma canção alegre, enquanto varre
os besouros, formando um pequeno bolo negro ao canto da varanda.

Naquele mesmo instante, outros dos nossos companheiros observavam o açude ao lado da casa, onde dezenas de tambaquis revelavam caudas para fora da água, pressentindo as luzes de mais um dia.

Trinta minutos da fazenda Santa Isabel até o Tabaco, através do rio Araguari. O sol ardia os verdes das matas das duas margens, os brancos e os negros das garças e mergulhões planando as águas, os azuis e os laranjas da atmosfera matutina e todas as cores dos nossos olhos
encantados.

Ainda de longe, vemos a comunidade, desenhando-se solitária entre a mata e o rio. Onze casas. Onze famílias. Canoas transportando crianças, crianças transportando peixes. Peixes transportando vida a onze famílias. Barcos maiores, guiados por homens, dominam a maresia, levando milho, melancias, jerimuns e peixes para o comércio das cidades mais próximas.

Sorriem para nós, para as câmeras que transportamos, para a curiosidade que trazemos.

Pela encosta gramada - quintal das casas enfileiradas e de janelas abertas para o frescor do rio - cavalos brincam, na sua liberdade primitiva, revoando os mergulhões que se acomodam nos galhos da margem.

Seguindo por um lado da vila, mais adiante, a foz do rio. Pelo outro lado, há poucas horas de voadeira, depois de caminhos estreitos por entre as paisagens, desvenda-se o Lago Piratuba, largo, tranqüilo e intocado,
também parte de uma das reservas biológicas do Amapá.

Por toda a manhã visitamos casinhas no Tabaco, conversamos com homens que pescam, plantam e colhem, com mulheres que lavam, cuidam e criam, com crianças que correm, nadam e pescam.

Canoas passam, com crianças nuas. As mais velhas são ágeis ao lançar à água a isca, e retirar, um minuto após, mais um peixe que se debate, reluzindo ao sol.

Por que Tabaco? Pergunto a uma jovem que trata uma bacia de peixes frescos aos fundos da casa. É Bom Jesus do Araguari, ela me responde, e me conta a história de um visitante que naufragou quase às portas da comunidade e cuja bagagem era uma saca de tabaco. Jamais voltou a encontrá-la, embora a tenha procurado por vários dias. A história virou pilhéria, outras comunidades tomaram conhecimento e passaram a chamar de Tabaco o Bom Jesus do Araguari, até que sua própria população habituou-se.

Almoçamos no salão das festas comunitárias o peixe pescado na mesma manhã. Ouvimos dos moradores mais velhos as histórias de quando a pororoca assombrava os ribeirinhos. Hoje sabem lidar com ela. Sabem da distância que devem manter da água quando ela vem. Este era um dia de janeiro, um dia de águas mansas, e a pororoca nem foi percebida.

Ao princípio da tarde, a chuva voltou. Durante horas, inundamos olhos e idéias com a garoa monótona que encharcava as árvores, a terra, as lembranças que julgávamos extintas. O cinegrafista, nosso melhor companheiro de viagem - por ser o mais sereno -, protegido pelas asas generosas de um guarda-sol multicolorido, guardava-se da chuva, a um metro das águas do rio. Os ombros vergados dentro de uma capa azul e translúcida, e a postura inabalavelmente silenciosa diziam que, mesmo ali, com a câmera apontada e à espera do movimento repentino do mergulhão solitário sobre a pedra, compartilhava conosco do despertar daquelas lembranças perdidas. Após o almoço, havia dormido serenamente, com a cabeça recostada num dos jerimuns que formavam, ao canto do salão, um imenso bolo laranja.

Dezenas de botos gastaram a tarde a exibir-se para as câmeras, em piruetas, mergulhos na atmosfera, acasalamentos. Seu Raimundo, um dos mais velhos habitantes da vila, sentado no chão, olhava conosco a brincadeira vespertina dos botos. Falava-nos dos tesouros daquele pedacinho do mapa, da fertilidade daquela terra, da abundância dos peixes, da generosidade do sol e das chuvas e da força do Araguari nas pororocas de março. Um pouco depois do cair da noite, e um pouco antes de adormecer, no fundo de nossas redes, ainda ouvimos o riso rouco, a voz longínqua de Seu Raimundo, dizendo: o Bom Jesus do Araguari mora no Tabaco...


Do livro Lugar da Chuva - Crônicas do Amapá
De Luli Rojanski