Desmistificando o rasga mortalha (lenda de suindara).

Há muitos anos existia uma moça obesa e de pele branca a qual se chamava Suindara. Carpideira, mulher que era paga para chorar em velórios e cemitérios. Filha de feiticeiro que sempre se vingava de quem fazia mal para sua família. Por ser branca e inteligente recebeu apelido de coruja branca na comunidade onde morava. Suindara então começa a namorar um rapaz filho de uma condessa preconceituosa que jamais permitiria que seu filho namorasse uma carpideira filha de feiticeiro, então bolou um plano diabólico. Após Suindara ter chorado no velório de uma pessoa, a empregada da condessa passou um bilhete para Suindara dizendo que queria contratar seus serviços, mas para isso teriam que se encontrar em um lugar escuro e distante do cemitério. Chegando lá, Suindara foi assassinada por um empregado da condessa. A população comovida com o crime, esculpira uma enorme coruja branca em seu túmulo. O feiticeiro, pai de Suindara após ter descoberto a assassina de sua filha, foi até o túmulo de sua filha e executou um ritual poderoso que fez o espírito da moça penetrar na estátua dando-lhe. Naquela noite, a coruja foi até a janela do quarto da condessa e começou a entoar um canto estranho, como alguém que estivesse rasgando uma seda. No dia seguinte a condessa estava morta e toda sua roupa estava rasgada dentro do armário. Diz à lenda que, se uma coruja pousar em seu telhado e piar um som estranho semelhante a um rasgado de seda, é sinal de que alguém em sua casa está presta a falecer.

O que queremos dizer com tudo isso é que, essas aves denominadas de aves de rapina, tem papel importantíssimo nas áreas urbanas por se alimentarem basicamente de roedores (ratos). A coruja a qual nos reportamos, conhecida popularmente como coruja de igreja, por ocupar as torres das igrejas, coruja católica, coruja branca, suindara, rasga - mortalha etc, tem se reproduzido bastante ultimamente na cidade de Macapá. Isso se dá ao fato da grande oferta de alimento (ratos), por outro lado também pela grande oferta de alimento (lixo) produzida pela população humana para a população murina (ratos), já que estes apresentam grande capacidade de onivorismo (alimenta-se basicamente de tudo que encontram).

Infelizmente, os ratos não causam somente danos materiais. Na verdade, o papel mais triste que o rato representa é a sua ação como transmissor em potencial de uma enorme série de doenças (zoonoses) onde os ratos participam direta ou indiretamente na sua transmissão ao homem, como:

Leptospirose - doença causada por microorganismos que se albergam nos rins dos ratos, os quais não sofrem nenhum mal com isso, mas se transmitem continuadamente através da urina que, misturando-se à água, lama ou certos alimentos aquosos, podem penetrar no homem e outros animais através das mucosas ou da própria pele íntegra ou principalmente escoriada.

Peste Bubônica - Uma das doenças mais antigas que afligiu a humanidade, transmitida através das pulgas dos ratos (principalmente a Xenopsylla cheopis). A morte negra, como era chamada, chegou a matar milhões de pessoas na Europa e na Ásia medievais, transmitida naquela época pelo rato preto Rattus rattus extremamente comum nas vilas e cidades. Embora hoje já não tenha a mesma expressão, a peste continua ceifando várias vidas humanas em inúmeros países, inclusive no Brasil (particularmente no Nordeste), onde os ratos responsáveis pela transmissão são diversas espécies silvestres principalmente.

Tifo Murino - Outras zoonoses onde a pulga do rato é a transmissora principal. Os sintomas dessa doença assemelham-se aos do tifo verdadeiro.

Febre da Mordida do Rato - São bactérias que se alojam nas gengivas dos ratos, estes, ao morderem as pessoas (especialmente bebês, crianças pequenas e idosos confinados à suas camas), transmitem-nas através de sua saliva. Essas doenças, assemelham-se a uma forte gripe de curta duração e têm caráter benigno, felizmente.

Triquinose - Suínos ingerem as fezes ou cadáveres de ratos infectados e o homem se infecta ingerindo a carne mal cozida desses suínos. No Brasil essa zoonose tem, inexplicavelmente, pouca expressão.

Raiva - O papel dos ratos na transmissão dessa virose fatal é hoje bastante conhecido, sabendo-se que o roedor, embora contraia a doença (e dela morra em alguns dias), é incapaz de transmitir o vírus rábico, posto que contrai a forma paralítica da doença, ficando assim impedido de disseminá-la. Assim, hoje em todo o mundo, dispensa-se o tratamento anti-rábico para pessoas agredidas por ratos.

Salmoneloses - Também conhecidas como envenenamentos alimentares bacterianos, causam severas gastroenterites agudas. As ratazanas (Rattus Norvegicus) são especialmente incriminadas na contaminação dos alimentos, principalmente porque frequentam ambientes altamente contaminados como os esgotos.

Sarnas e Micoses - Os ratos em geral podem disseminar mecanicamente os agentes causadores dessas ectoparasitoses, tanto ao homem como a outros animais.

Hantavirose - Através de suas fezes e urina, podem transmitir o hantavirus, um novo agente que já surgiu em nosso país, causando severa virose de curso mortal. A contaminação se dá pela inalação de partículas de fezes secas dos ratos contaminados.

A coruja de igreja ou suindara é uma ave naturalmente noturna e frequêntemente apresenta alguma atividade crepuscular. Encontrados em atividade durante o dia estão geralmente famintos ou buscando alimento para sua ninhada, permanecem durante o dia em fendas em árvores, cavidades em rochedos, forros ou sótão de casas, torres de igreja, etc. Costumam banhar-se em poças d'água e pequenos córregos. Seu voo extremamente silencioso dá-se devido a sua adaptação a caças noturnas, sua aproximação não é identificada pela presa que é facilmente capturada. São encontradas solitárias ou aos pares, geralmente são sedentárias, não saindo de uma região depois de instaladas. A área de seus territórios compreendem um raio de 7,4 Km em média.

Este ano o Centro de Triagem de Animais Silvestres - CETAS, órgão ligado ao Instituto Brasileir do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, já recebeu 26 corujas da espécie Tito alba, conhecida popularmente como coruja de igreja, etc.. Essas aves a maioria chegam ao Centro ainda filhotes e/ou mutiladas o que mesmo após sua recuperação e reinamento com pequenos roedores vivos os quais fazem parte de sua dieta alimentar, o sucesso de retorno ao seu habitat é muito difícil.

O homem destrói o meio onde vive e a natureza reage reconstruindo, o homem destrói novamente e assim mesmo ainda a natureza reage ajudando-o a salvar sua própria vida, à medida que essas aves se alimentam de roedores transmissores de doenças.

A natureza é maravilhosa e vive nos dando belas lições de vida!

Mauro Jackson Moraes

 


A Muiraquitã
Fascínio de Sereia - A Yara

O segredo das amazonas
O Guardião da Princesa Loura
A lenda do dia e da noite